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 NOTÍCIAS :: ZOOLOGIA

Especiação nas dunas do São Francisco 
Genética investiga espécies distintas que ocorrem em margens opostas do rio

As imediações do rio São Francisco próximas ao povoado de Santo Inácio (BA) abrigam mistérios que só agora começam a ser desvendados. Dunas de até 150 metros de altura se estendem por 120 quilômetros ao longo das duas margens do rio. A área, equivalente a 0,6% da caatinga, é considerada hoje o espaço com maior endemismo (ocorrência de espécies exclusivas) do país, com animais adaptados especificamente ao solo arenoso e à escassez de água. Metade das 40 espécies de lagarto da região são endêmicas das dunas.

A cianobactéria Fischerella, que fixa o nitrogênio da atmosfera, é crucial para o funcionamento biológico  em escala global (foto: reprodução/O que é vida?)


Um grupo de zoólogos e geólogos descobriu que nas dunas das duas margens do São Francisco há animais parecidos, mas de espécies distintas. Mesmo os que vivem em dunas isoladas no mesmo lado do rio apresentam características diversas. Essas espécies-irmãs, ditas vicariantes, são do mesmo gênero e têm pequenas diferenças físicas e de constituição genética por viverem separadas e construírem uma história evolutiva própria.

As razões que levaram a essa especiação vêm sendo estudadas desde os anos 80. A primeira hipótese de Miguel Rodrigues, do Instituto de Biociências (IB) e diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), era que o fenômeno teria sido causado pela formação de redutos de mata devido à glaciação ocorrida há cerca de 10 mil anos. A fauna da época teria se concentrado nesses locais, chamados refúgios: animais da mesma espécie teriam sido isolados em refúgios separados por barreiras ecológicas, sendo submetidos a diferentes condições de sobrevivência. Estudos morfológicos mostraram que as espécies de lagarto das dunas têm membros menores e corpo mais alongado que os gêneros mais primitivos.

As espécies-irmãs Tropidurus divaricatus (esq.) e T. amathites (dir.)
podem ter se separado há dois milhões de anos


Para complementar o estudo, Maria Lúcia Benozzati, também do IB, vem realizando a análise genética das espécies-irmãs Tropidurus amathites e T. divaricatus, que vivem em margens distintas. Desde a separação, essas espécies não trocam genes (pois a reprodução não é mais possível) e vêm sofrendo mutações distintas. Analisando o seqüenciamento do DNA da mitocôndria - fácil de verificar por ser pequeno -, ela pôde quantificar as diferenças genéticas acumuladas e datar os eventos de separação.

"Tivemos uma surpresa", afirma Benozzati. "Como as diferenças são proporcionais ao tempo de isolamento das espécies, constatamos que a separação ocorreu há cerca de dois milhões de anos." Ela teria sido motivada por um fenômeno anterior à glaciação cogitada inicialmente. "Ainda não sabemos o que levou a essa separação", explica Rodrigues. "Pode ter sido uma mudança no curso do rio ou até uma glaciação anterior."

Helena Aragão
Ciência Hoje On-line
26/10/00

 
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