Ursos negros que hibernam durante vários meses do ano em cavernas das Montanhas Rochosas, nos Estados Unidos, podem preservar cerca de 80% de sua força muscular durante o período, ainda que permaneçam imóveis, sem comer ou beber. Humanos que passam por períodos similares de inatividade costumam perder 80% de sua força. Para entender como os ursos conservam sua força muscular, pesquisadores norte-americanos têm estudado há cinco anos esses animais. As descobertas mais recentes foram publicadas em 22 de fevereiro na revista Nature.
 |
|
Cientistas norte-americanos estudam ursos negros hibernantes há cinco anos nas Montanhas Rochosas para entender a preservação de sua força muscular | | |
Os cientistas desenvolveram um método não invasivo para medir a força dos ursos enquanto hibernam. Trata-se de um dispositivo que se encaixa sobre o joelho do animal. Quando o nervo é estimulado, a reação muscular do urso pode ser visualizada em um monitor. Os pesquisadores entram na caverna e testam a força do animal duas vezes durante o inverno. Os testes confirmaram que os ursos perdem apenas cerca de 20% de sua força durante a hibernação.
Em estudos anteriores, o exame de amostras do tecido muscular e do sangue de ursos havia apontado que eles perdem pouca proteína enquanto hibernam. Segundo o pesquisador Henry Harlow, da Universidade de Wyoming (EUA), co-autor do artigo da Nature, a conservação é obtida a partir da reciclagem da uréia: o nitrogênio da urina dos ursos converte-se em novos aminoácidos. Com isso, conservam-se as proteínas e renovam-se os tecidos musculares dos animais. Uma pesquisa anterior confirmou que ursos podem reciclar perto de 100% de sua perda urinária, enquanto outros animais hibernantes reciclam apenas cerca de 20%.
No entanto, a conservação das proteínas explica apenas parcialmente a preservação da força muscular dos ursos. Para isso, segundo Harlow, algum exercício também é necessário. Ele especula que, durante a hibernação, os ursos se exercitam involuntariamente: eles passariam por períodos de grande ’tremedeira’, durante os quais muitos de seus músculos se contrairiam. A monitoração da temperatura dos ursos mostrou aumentos significativos cerca de quatro vezes por dia. Para Harlow, isso é um indício dos períodos em que os ursos tremem involuntariamente. Ele acredita que essas respostas fisiológicas foram desenvolvidas como um mecanismo de sobrevivência. "Nas cavernas, os ursos estão vulneráveis a pumas e outros predadores", justifica. "Eles devem poder despertar rápido o bastante para evitar ou resistir aos intrusos."
Os resultados da pesquisa podem vir a minimizar os efeitos da atrofia muscular ou ajudar astronautas a manter sua força durante longos vôos espaciais. "Quando soubermos com certeza como os ursos preservam sua força, o próximo passo será verificar se podemos aplicar alguns desses achados a humanos", diz Harlow.