O açaí pode ajudar a combater a esquistossomose. Pesquisadores da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) descobriram que substâncias presentes no extrato do fruto têm ação moluscicida. Ao longo de três meses, elas matam os caramujos, hospedeiros intermediários do parasita causador da doença. Além de ser abundante no Brasil, o extrato de açaí depositado na água tem a vantagem de não interferir no desenvolvimento da fauna da região.
A descoberta da ação combativa do fruto aos caramujos foi feita durante a pesquisa de mestrado de Gracilene Barros, orientada pelo professor Fábio de Sousa Menezes. Nos testes moluscicidas, eles contaram com a colaboração da professora Célia Santos da Silva. A equipe analisou em laboratório a reação de caramujos a extratos de diferentes partes da palmeira do açaí. Como controle positivo, foi usada a planta Phytolacca dodecandra, sabidamente letal para os moluscos.
Para se comprovar o efeito moluscicida, a cada três, seis e doze horas, caramujos foram retirados dos recipientes contendo os extratos, colocados em água pura e observados por tempo determinado. Os pesquisadores notaram que os moluscos mergulhados na solução com P. dodecandra morreram por hemorragia. Os que estiveram em contato com extratos do açaí permaneceram viáveis dentro do período pré-estabelecido. No entanto, a equipe continuou a observar e notou que os caramujos cessaram a reprodução e que 90% dos moluscos morreram ao longo de três meses.
"O que apresentou atividade moluscicida foi uma mistura de substâncias da qual não se tem como inferir a natureza química", afirma Fábio Menezes. A equipe constatou também que essa espécie de caramujo não ocorre em rios no Maranhão pouco caudalosos, de pouca correnteza e situados em área rica em juçara (nome pelo qual a palmeira do açaí é conhecida na região). As raízes submersas da palmeira Euterpe oleracia provavelmente promovem uma transferência das substâncias do açaí com ação moluscicida para a água.
O controle da esquistossomose[1] pelo combate do hospedeiro intermediário tem se mostrado de difícil aplicação. Os caramujos costumam pôr ovos à margem dos rios. Estes se aderem a pedaços de pau ou folhas secas, são carregados ao longo do leito dos rios e vão formar populações em outras regiões, o que dificulta sua eliminação. Porém, Fábio Menezes sugere que a atividade moluscicida de partes da palmeira pode ser reforçada periodicamente pela queda de frutos na água. O objetivo é prevenir a esquistossomose e reduzir o número de hospedeiros intermediários da doença, o que diminuiria o número de pessoas infectadas. Mas Fábio ressalta que isso não dispensa o saneamento básico e medidas informativas à população.
Além do efeito moluscicida do açaí, a tese de Gracilene Barros permitiu também identificar propriedades antioxidantes do fruto. O açaí combateria o envelhecimento da pele e seria ainda um eficaz bactericida da pele, o que justificaria, para Fábio Menezes, seu uso em cosméticos.