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 NOTÍCIAS :: ZOOLOGIA

Sinfonia por um território 
Lagartas emitem sons para defender seu hábitat; veja filmes gravados por cientistas

Quando a bióloga Jayne Yack, da Universidade de Carleton (Canadá), ouviu certa noite um estranho som de batucada vindo dos experimentos que fazia com lagartas em sua casa, mal podia imaginar sua origem. Mais tarde, sua equipe mostrou em laboratório que os ruídos tinham importante papel na interação entre esses animais. Os cientistas descobriram que lagartas da espécie Drepana arcuata defendem seu território por meio de vibrações que afastam os intrusos. Os sons são produzidos por batidas ou pelo atrito da mandíbula do animal nas folhas.

Experimento em que foi gravado o som emitido por lagartas da espécie
D. arcuata para defender seu território (imagem e vídeos: J. Yack et alii)

O curioso modo de comunicação representa a defesa e competição entre essas lagartas e surpreendeu os cientistas pela semelhança com os sistemas territoriais dos vertebrados. "É a primeira vez que se notam modelos de territorialidade semelhantes ao de vertebrados em organismos tão pequenos", diz Patrick Weatherhead, biólogo da Universidade de Illinois (EUA) e co-autor do estudo publicado em 25 de setembro na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

Clique em cada imagem para assistir a dois filmes que mostram a ’sinfonia’
das lagartas. Cada arquivo tem aproximadamente 4 MB. Para visualizá-los,
você vai precisar do programa Quicktime, que pode ser baixado de graça

Os cientistas fizeram 53 experimentos em que colocaram uma segunda lagarta em uma folha ocupada por uma ’residente’ que havia construído um ninho para protegê-la. Os testes foram realizados enquanto a lagarta ’original’ comia. Em todos eles, a invasora aproximou-se da residente, que parou de se alimentar e começou a emitir sinais de expulsão.

Três sons distintos foram registrados. O primeiro, causado pelo arrastar do abdome da lagarta na superfície da folha, lembra uma ’raspagem’; o segundo é um ’batuque’ provocado por fortes golpes das mandíbulas contra a folha; o terceiro é produzido quando as mandíbulas abertas são raspadas na folha. Os ruídos, que podem ser ouvidos por humanos a até quatro metros de distância, fizeram com que as residentes expulsassem as invasoras em 86,8% dos casos.

As invasoras também produziram sinais acústicos em 38,7% das disputas, criando o que os cientistas chamaram de "verdadeiros duelos". As residentes geralmente mantinham-se silenciosas até notar a presença de uma intrusa. Elas sempre sinalizavam primeiro e ficavam em seus ninhos até que a intrusa se aproximasse. Durante o confronto, a única forma de agressão física notada foi a ’cabeçada’. O tamanho relativo pareceu afetar a probabilidade de as intrusas tentarem tomar o ninho das residentes: em todos os experimentos em que se saíram vencedoras, elas eram maiores. Em três ocasiões, a invasora construiu um ninho novo na mesma folha habitada pela residente.

Em outro teste, as lagartas residentes foram deslocadas e colocadas de volta na folha onde tinham feito seu ninho quando este já estava ocupado por uma lagarta invasora. A intrusa defendia o território como se fosse dela própria. Segundo Weatherhead, o fato mostra que as lagartas só produzem os sons para questões de territorialidade entre sua espécie. "O aparelho visual das lagartas é muito primitivo, o que torna a comunicação por sons uma peça fundamental de seu convívio no hábitat natural."

Sarita Coelho
Ciência Hoje On-line
05/11/01

 
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