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[1] A autora propõe uma interessante analogia entre colônias de formigas e sistemas biológicos cujo funcionamento depende da interação entre unidades independentes, como o cérebro e o sistema imunológico.

 
 NOTÍCIAS :: ZOOLOGIA

Como funciona uma sociedade de formigas?
Livro resume 17 anos de pesquisa e transporta leitor para dentro de uma colônia

Ao contrário do que reza o senso comum, certas sociedades de formigas não se estruturam segundo uma hierarquia pré-estabelecida. Os indivíduos se organizam de forma dinâmica e mudam de função ao longo da vida; as rainhas não têm qualquer ’autoridade’ sobre as operárias, e sua função é meramente reprodutiva; existem até formigas preguiçosas! Essas são apenas algumas curiosidades sobre esses insetos contadas por Deborah Gordon em seu livro Formigas em ação, recém lançado no Brasil.

Detalhe da capa de Formigas em ação

O livro é o resultado de 17 anos de dedicação da autora (professora de biologia na Universidade de Stanford, EUA) à pesquisa dos hábitos desses insetos, especificamente das formigas colhedoras vermelhas (Pogonomyrmex barbatus), espécie que se alimenta de sementes e vive no deserto do Arizona (EUA).

O trabalho árduo é narrado no livro com riqueza de detalhes. Sob o sol do deserto, era necessário cobrir quase toda a superfície do corpo para se proteger das dolorosas picadas das colhedoras. Deborah procurou interferir o mínimo possível nas colônias estudadas. Em alguns momentos, porém, a interferência foi inevitável. Para calcular a taxa de crescimento de uma colônia, por exemplo, era preciso escavar o formigueiro e contar as formigas uma a uma.

Uma colônia nasce da dança de acasalamento entre rainhas jovens e machos, após o período chuvoso. A rainha recém-acasalada escolhe um lugar para cavar um novo formigueiro na terra úmida. É lá que, durante os próximos 20 anos (tempo de vida de uma rainha), ela dará origem a milhares de formigas, descendentes de um único acasalamento.

Apenas as rainhas podem gerar formigas fêmeas. Estas podem ser operárias, que vivem cerca de um ano, ou rainhas, que fundarão novas colônias. Já os machos, que vivem apenas uma semana, provêm de óvulos não fertilizados e, portanto, podem ser gerados tanto pela rainha como pelas operárias. A rainha, ao contrário do que supõe seu nome, não tem privilégios especiais: seu trabalho se resume a pôr ovos.

Formigas engajadas em tarefas diferentes se encontram
e se tocam ao entrar e sair do formigueiro


As operárias se dividem nos trabalhos do formigueiro. As forrageadoras se encarregam da busca por alimento. Além delas existem as patrulheiras; as operárias do monturo, que retiram dejetos da colônia; as operárias da manutenção, que realizam reparos; e, enfim, as formigas que empilham sementes e alimentam larvas dentro do formigueiro.

Ao contrário do que se pensa, as formigas não nascem predestinadas a um trabalho específico[1]. As mais jovens trabalham no interior do formigueiro e mudam de função conforme ficam mais velhas, de acordo com a necessidade da colônia. Há também formigas ociosas, uma reserva para o caso de ocorrerem imprevistos.

Formigas em ação tem um texto fluido e bem humorado, entremeado por ilustrações que facilitam a compreensão. A narrativa é pontuada pelo relato de experimentos -- como aquele em que Deborah marca as formigas com tintas coloridas para demonstrar a troca de tarefas entre elas. O entusiasmo da autora certamente fará o leitor passar a ver as formigas com outros olhos.

Formigas em ação - como se organiza uma sociedade de insetos
Deborah Gordon (trad.: Maria Luiza X. de A. Borges)
Rio de Janeiro, 2002, Jorge Zahar Editor
144 páginas - R$ 24,50

Adriana de Melo
Ciência Hoje On-line
15/08/02

 
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