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 NOTÍCIAS :: ZOOLOGIA

Pássaro ’pula cerca’ pela diversidade da ninhada
Aves socialmente monogâmicas são ’infiéis’ quando parceiro é geneticamente próximo

Estudos com diferentes animais já mostraram que a semelhança genética entre um casal compromete o sucesso da prole. Recentemente, um grupo de dez biólogos de seis países comprovou que com os pássaros não é diferente. Os pesquisadores analisaram o comportamento e amostras de sangue de três espécies de aves que vivem em praias e constataram que tanto o macho como a fêmea procuram ’pular a cerca’ quando o atual parceiro é geneticamente muito próximo. O objetivo dessa infidelidade seria aumentar a variabilidade gênica da prole e evitar a consangüinidade na ninhada. O estudo, coordenado por Bart Kempenaers, do Centro de Pesquisa em Ornitologia Max Planck (Alemanha), foi publicado em 10 de outubro na revista Nature.

Filhotes da espécie Calidris Mauri pouco após o nascimento


Ao analisar a linhagem de três espécies de aves praianas (Calidris mauri, Actitis hypoleuca e Charadrius alexandrinus), os pesquisadores constataram que, embora a maioria das espécies de aves sejam socialmente monogâmicas, nem todos os filhotes no ninho eram do mesmo pai e da mesma mãe. A freqüência registrada de filhotes gerados com outros parceiros não foi muito alta: menos de 8% da prole de Calidris mauri não era do mesmo casal que vivia no ninho; chegava a 5% na espécie Charadrius alexandrinus e 20% na Actitis hypoleuca.

O que mais chama a atenção, no entanto, é que nos casos em que foram identificados filhotes ’ilegítimos’, os biólogos verificaram que o casal que socialmente dividia o ninho era muito próximo geneticamente. Isso significa que a infidelidade seria o modo encontrado pelas aves para garantir maior diversidade genética aos filhotes. "As fêmeas são capazes até de reconhecer um bom parceiro pelo histórico de ninhadas bem sucedidas do macho com outra fêmea e aproveitar essa informação para escolher esse macho no futuro e, assim, aumentar o sucesso da próxima prole, por exemplo", explica Luiz Octavio Marcondes Machado, ornitólogo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "A procura por parentes para copular só ocorre quando a oferta de machos é escassa."

Cabe lembrar que parentes podem carregar genes recessivos deletérios, ’escondidos’ por um gene dominante não maléfico. Em caso de cruzamento entre eles, a chance de a ninhada herdar dois alelos idênticos desses genes deletérios -- um do pai e um da mãe -- é muito alta. "Ao buscar outros parceiros, os pássaros também evitam que genes recessivos letais sejam duplicados, o que traria malefícios aos filhotes", explica Luiz Octavio.

O que os pesquisadores ainda não conseguem explicar é como os pássaros reconhecem seus parentes -- e, portanto, como saberiam identificar um parceiro geneticamente próximo. "Sabe-se que as aves conseguem identificar os irmãos que nascem no mesmo ninho, mas não há idéia de como elas reconhecem meio-irmãos de outros ninhos ou primos, por exemplo", diz Luiz Octavio. Agora, o maior desafio para os pesquisadores da área é determinar os mecanismos usados pelos pássaros para avaliar um potencial parceiro para a cópula.

Elisa Martins
Ciência Hoje On-line
04/11/02

 
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