Os ruídos e chiados que freqüentemente atrapalham as ligações telefônicas são causados, em parte, por ratos. Os roedores atacam os cabos de proteção dos fios transmissores, que, sujeitos à ação da umidade e de outros animais, como as formigas, acabam perdendo a capacidade de transmissão de informação. Com o objetivo de afastar a ameaça desses animais, o Laboratório de Vertebrados do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desenvolveu cabos de proteção resistentes a roedores, revestidos de fibra de vidro.
O projeto, auxiliado pelo Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Telebrás, foi uma iniciativa da Embratel, que procurou o laboratório da UFRJ em 1993, quando iniciou a implantação de fibras óticas no país, substituindo os antigos cabos metálicos. Uma fibra óptica, com espessura comparável à de um fio de cabelo, tem a mesma capacidade de transmissão de 20 mil linhas telefônicas. Com um par delas, é possível fazer uma transmissão simultânea de 240 mil canais digitais. A proteção dos fios ópticos, portanto, cumpre importante papel econômico.
"Quando a Embratel nos procurou, pensamos em alterar o gosto do material dos cabos de proteção, utilizando compostos químicos. Mas deparamos com algumas dificuldades. As substâncias químicas são voláteis, o que significa que elas têm um limitado período de ação", diz Rui Cerqueira, coordenador do Laboratório de Vertebrados. "Além disso, elas poderiam matar os animais e provocar danos ao meio ambiente, dado o nível de toxicidade", acrescenta.
Durante os quatro anos de trabalho, com investimento de R$ 180 mil, foram realizados testes com diferentes espécies de roedores e vários tipos de materiais. Após os testes, a equipe de Cerqueira constatou que os ratos se afastavam após roer cabos revestidos com fibra de vidro. De acordo com Cerqueira, isso acontece porque, "ao ser roída, a fibra libera um tipo de farpa, ferindo levemente a boca dos animais".
A proteção desenvolvida pelo laboratório é formada por uma série de camadas: inicialmente, o núcleo dos cabos é coberto por aramida (o mesmo material usado em coletes à prova de bala), em seguida por um tubo plástico revestido por nylon espiral. Para finalizar, é aplicada a camada de fibra de vidro que, para adquirir propriedades adequadas, sofre um processo chamado de poltrusão -- elevação da temperatura e da compressão das fibras até que se transformem em finas bisnagas.
Segundo Cerqueira, os roedores roem os cabos não por fome, mas pela necessidade de gastar os dentes, que crescem incessantemente. "Dependendo da espessura do cabo, duas ou três horas são suficientes para que o animal cause danos irreparáveis", afirma Cerqueira.
Nos Estados Unidos, a destruição dos fios leva a prejuízos da ordem de US$ 1 milhão em empresas como o metrô, operadoras telefônicas e todas aquelas que dependem de serviço via Internet. No Brasil, não há estimativas das perdas, mas é possível fazer especulações sobre os ganhos com a nova proteção. A Embratel já investiu R$ 595 milhões na primeira etapa do projeto de implantação da rede óptica, totalizando 8.500 km de extensão. Para a segunda etapa, que deve terminar em 1999, está previsto um investimento de R$ 350 milhões. A proteção de fibra de vidro poderá evitar, portanto, que os R$ 945 milhões tenham sido investidos em vão.