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[1] "Um ser humano normal consegue detectar a presença de cerca de 0,3 g de sal de cozinha e de 6,85 g de açúcar em 200 ml de água", exemplifica o inventor Henrique Mattoso. "A língua eletrônica consegue detectar 0,06 g de sal e 0,3 g de açúcar em 200 ml de água."

 
 NOTÍCIAS :: TECNOLOGIA

’Língua eletrônica’ reconhece sabor de bebidas
Indústrias alimentícia e farmacêutica serão beneficiadas por invento premiado

O tradicional métier dos degustadores de vinho pode encontrar um forte concorrente dentro de um ano. Deve estar disponível no mercado a ’língua eletrônica’, aparelho que permite avaliar sabores com precisão muito maior que a humana. Criada pelos pesquisadores Luiz Henrique Capparelli Mattoso e Antonio Riul Júnior, do centro de Instrumentação Agropecuária da Embrapa, em parceria com a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), a língua eletrônica recebeu em novembro de 2001 o Prêmio Governador do Estado de São Paulo na categoria invento brasileiro.

Quando mergulhada em um líquido, a língua eletrônica é capaz de determinar seu sabor. Os sensores (pequenas placas brancas) interagem com a bebida e geram sinais elétricos que são transmitidos e interpretados por um computador

O dispositivo é um sensor gustativo para avaliação de líquidos, capaz de reconhecer substâncias doces e salgadas a partir de 5 milimolar[1] -- a língua humana só identifica o doce a partir de 10 milimolar e o salgado a partir de 30 milimolar. A língua eletrônica detecta também o sabor azedo, amargo e umami (relativo a frutos do mar e comidas asiáticas), além de identificar a mistura entre eles. O sistema diferencia ainda bebidas de mesmo paladar, como variedades distintas de café ou água mineral. Testes preliminares demonstraram a aplicabilidade do invento também para aromas, mas a análise de alimentos sólidos permanece distante.

A língua eletrônica consiste em um conjunto de unidades sensoriais que devem ser mergulhadas no líquido analisado. Essas unidades são eletrodos metálicos recobertos por uma finíssima camada de diversos polímeros inteligentes -- plásticos sensíveis às substâncias presentes na bebida. Os eletrodos geram padrões de sinais elétricos que variam em função da bebida avaliada. "Como os polímeros inteligentes conduzem eletricidade", Mattoso esclarece, "eles transformam a interação entre as unidades sensoriais e a bebida em sinais elétricos que são captados por um software apropriado, treinado para fazer a conversão para os paladares conhecidos por meio da inteligência artificial."

Henrique Mattoso (esq.) e Antonio Riul apresentam a língua eletrônica

A rapidez na resposta e o menor custo tornam o invento altamente vantajoso em relação a equipamentos de laboratórios de análises químicas e físicas. Além do emprego evidente nas indústrias de bebidas e alimentos, a língua eletrônica servirá também às indústrias farmacêuticas no teste de sabor de remédios, ou na detecção de impurezas e aditivos no monitoramento da qualidade da água.

O invento, cujo projeto custou R$ 1 milhão, está sendo automatizado com o uso de inteligência artificial em parceria com o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação e o Instituto de Física da USP de São Carlos, e deve chegar ao mercado dentro de um ano. Segundo Mattoso, o prêmio recebido não foi uma surpresa para os inventores: "conhecíamos o potencial do equipamento, sua qualidade e a importância dos resultados obtidos", reconhece.

Raquel Aguiar
Ciência Hoje On-line
07/01/02

 
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