Um avião voando sem piloto pode evocar imagens de desastre. Mas e se ele fosse capaz de voar sozinho -- subir, descer, virar para a esquerda ou para a direita sem qualquer comando humano? Embora pareça ficção científica, esse cenário não está longe de se tornar uma realidade: um avião não-tripulado está sendo desenvolvido no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos, sob orientação do professor Onofre Trindade Júnior.
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Protótipo de avião não-tripulado desenvolvido pelo projeto Arara. O aeroplano tem 2 metros de envergadura e pode voar por 2 a 3 horas a 3 km de altitude | | |
O uso de aeromodelos (aviões e helicópteros) na obtenção de imagens aéreas para monitoramento ambiental e agrícola é o objetivo do Projeto Arara (Aeronaves de Reconhecimento Assistidas por Rádio e Autônomas). Idealizado por Trindade Jr., o projeto tem quatro fases e conta com o apoio da Embrapa. "Queríamos desenvolver um sistema de baixo custo que pudesse substituir a imagem por satélite e o avião tripulado", conta Luciano de Oliveira Neris, que recentemente defendeu tese relacionada ao projeto.
A primeira fase consistiu na realização de testes de vôo radiocontrolado (RC) com aeromodelos convencionais equipados com uma câmera fotográfica. Na segunda fase, atualmente sendo finalizada, Neris criou e testou um aeromodelo RC específico para o projeto. Com dois metros de envergadura e propulsão a hélice, o avião pode ser lançado manualmente ou com auxílio de uma pequena catapulta, similar em princípio às usadas em porta-aviões. O modelo possui vários sensores (GPS, velocímetro, altímetro etc) ligados a um computador de solo e é capaz de voar sem acompanhamento visual, embora ainda dependa do controle do operador.
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Fotos tiradas pelo protótipo de uma fazenda no interior de São Paulo | | |
Vários testes já foram realizados com esse modelo, que pode voar a uma altitude de três quilômetros e possui uma autonomia de meia hora. O protótipo sobrevoou e fotografou a cidade de São Carlos, uma fazenda da região e uma pista de aeromodelos local.
Na terceira etapa, que deve terminar no final de 2002, a missão será totalmente automatizada com a instalação de sistemas de navegação e controle. Desenvolvido na tese de Neris, o sistema de controle é capaz de alterar o vôo do avião em resposta às informações recebidas do sistema de navegação. Isso permitirá que rotas pré-programadas sejam seguidas sem qualquer intervenção humana. O sistema de Neris foi criado a partir do Toolbox (uma ferramenta do programa de modelagem matemática Matlab), que possui uma simulação específica para aviões.
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Imagens da cidade de São Carlos (SP) realizadas pelo avião não-tripulado | | |
A fase final do Projeto Arara está prevista para ser concluída no meio de 2003 e implementará ’inteligência’ nos aeromodelos. "A idéia é usar técnicas de redes neurais e sistemas especialistas para aumentar a potência computacional dos aviões", explica Trindade Jr. Quando essas técnicas estiverem em operação, os aeroplanos poderão não só localizar desmatamentos, seguir o curso de rios e contar árvores, como também determinar se devem tirar fotos ou realizar outras funções.