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 NOTÍCIAS :: TECNOLOGIA

Análise de unha aponta consumo de cocaína
Método inovador poderia revelar exposição crônica à droga até meses antes do exame

A análise toxicológica da unha de um indivíduo permite identificar se ele consumiu cocaína até alguns meses antes do exame. Isso é o que mostra um estudo inédito realizado pela pesquisadora Simone Valente Campos, em dissertação de mestrado recém-defendida na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. "A análise da unha é mais eficaz para verificar a exposição crônica à droga", explica Simone. O exame de urina, geralmente adotado, só detecta o consumo de cocaína até 72 horas antes do teste.

As unhas crescem cerca de 3 milímetros ao mês
e podem passar de 1 centímetro de comprimento


A cocaína, após consumida, entra pela corrente sangüínea e alcança o sistema nervoso central e vários órgãos do organismo, inclusive as células que irão compor a estrutura da unha.

As unhas crescem cerca de 3 milímetros ao mês, da porção mais próxima do dedo à margem livre, e podem passar de 1 centímetro de comprimento. Assim, se a unha de um indivíduo tem, por exemplo, 9 mm antes da coleta para análise e 6 mm depois, os 3 mm retirados permitiriam em princípio apontar sua exposição à cocaína durante o terceiro mês anterior à coleta. "Não se sabe, no entanto, se a correlação entre o tamanho da unha e o período de exposição à droga é totalmente correta," frisa Simone. "Há poucos estudos sobre os mecanismos de incorporação das substâncias à unha."

Após coletada, a unha passa por um processo de descontaminação para assegurar que a presença da droga é proveniente do uso e não de sua manipulação. O material é então dividido em amostras de 5 miligramas e adicionado a um solvente para extrair a cocaína. Em seguida, o solvente é evaporado e o extrato obtido é injetado no equipamento que identifica a presença de cocaína: um cromatógrafo em fase gasosa acoplado a um espectrômetro de massas.

A análise de unhas pode ser adotada no auxílio de investigações forenses pós-morte. Nesses casos, o exame de urina muitas vezes apresenta um resultado falso negativo, em função do grau de decomposição do cadáver. "Pode até ser impossível coletá-la devido ao esvaziamento da bexiga", explica Simone. "Já as unhas permanecem indestrutíveis por um longo período de tempo."

O método também serve para identificar a exposição à cocaína em recém-nascidos. A dissertação de Simone defende que essa técnica é mais eficaz que os exames mais adotados nessa situação, realizados com os cabelos ou as primeiras fezes do recém-nascido. "Como a formação da unha no período de gestação é anterior, é possível detectar se o feto teve exposição prolongada no período de morfogênese."

A análise de unhas apresenta ainda a vantagem da facilidade de coleta do material. Não são necessários cuidados especiais de armazenamento e transporte. Já o exame de cabelo, também usado para detectar exposição crônica à cocaína, requer treinamento especializado para coleta, pois é preciso retirar a amostra de uma região onde o crescimento seja mais uniforme.

Simone espera que seu estudo incentive o uso desse tipo de exame. "A análise toxicológica em unha ainda é muito pouco adotada no Brasil."

Denis Weisz Kuck
Ciência Hoje On-line
14/10/02

 
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