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 NOTÍCIAS :: SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA

A cor da pobreza
Análise de estatísticas recentes mostra dimensão da desigualdade racial no Brasil

As desigualdades entre a população branca e a população afro-descendente (que inclui negros e pardos) no Brasil se refletem em parâmetros como condições de vida, distribuição de renda ou grau de escolaridade desses grupos. Um estudo coordenado por Rosana Heringer, socióloga e pesquisadora da Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, aponta a dimensão da desigualdade a partir da análise de estatísticas recentes. A conclusão é clara: "a pobreza no Brasil tem cor", afirma Rosana. A mortalidade infantil de afro-descendentes, por exemplo, é de 62,3 por mil nascidos vivos; entre os brancos, o número cai para 37,3 por mil, segundo dados de 1996 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).

O estudo de Rosana - que já publicou sobre o tema o livro A cor da desigualdade - dará origem a um documento propondo ações para diminuir a desigualdade. O Escritório Nacional Zumbi dos Palmares pretende encaminhar o documento à Terceira Conferência Mundial da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre racismo, que acontecerá em agosto de 2001.

A educação, por ser um dos principais fatores associados ao nível de vida e ao alcance de melhores oportunidades no mercado de trabalho, está na base da maioria das desigualdades verificadas. Dados do Pnad mostram que a proporção de negros entre as pessoas com 12 anos ou mais de estudo (ou seja, que possuem curso superior) é de apenas 2,8%, quase quatro vezes menor do que a verificada entre brancos na mesma faixa (10,9%). No entanto, o estudo também associa o quadro de desigualdade à discriminação, ao mostrar que negros e brancos possuem rendimentos diferenciados, mesmo em condições iguais de escolaridade.

Diferença salarial entre brancos e negros é maior em grupos com
grau de instrução elevado (dados relativos à cidade de São Paulo)


Outro dado importante para detectar a desigualdade racial no Brasil foi apresentado pelo economista Marcelo Paixão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em trabalho desenvolvido a pedido da ONG Fase, do Rio de Janeiro. Em 1998, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da população brasileira, elaborado pela ONU e medido a partir da renda per capita, expectativa de vida e taxa de escolaridade, colocava o Brasil em 70º lugar no plano mundial. Paixão calculou o IDH de segmentos da população brasileira em função de sua cor. O resultado reforça as conclusões do estudo coordenado por Rosana. Considerando apenas a população branca, o país pularia para a 49º posição no mundo. Já com o IDH da população negra, o Brasil seria 108º, atrás, inclusive, da África do Sul - que até pouco tempo atrás vivia um regime de segregação racial explícito.

Thaís Fernandes
Ciência Hoje On-line
11/10/00

 
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