Desde 1906, quando ocorreu o primeiro Congresso Operário do Brasil e o país iniciava seu processo industrial, as mulheres já reivindicavam direitos trabalhistas e lutavam para igualar seus salários aos dos homens. No fim do século 20, o quadro mudou, mas não muito. Segundo dados da fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados de São Paulo) divulgados pela revista Veja, a participação feminina no mercado de trabalho equivale hoje a 51%. No entanto, a posição do homem ainda é mais valorizada, fato que se reflete diretamente na estrutura familiar brasileira, para a qual o desemprego do patriarca gera problemas que não se limitam à esfera financeira.
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Apesar da crescente participação feminina no mercado de trabalho, o emprego masculino ainda é mais valorizado | | |
A constatação é da cientista social Maria da Conceição Quinteiro, do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), que estudou os efeitos do desemprego na organização da família a partir de entrevistas com 40 casais de São Paulo em que um dos parceiros estava desempregado por mais de um ano. Ela concluiu que o desemprego masculino pode ser muito mais prejudicial à família que o feminino.
Os entrevistados pertenciam a dois setores da economia: indústria e serviços. O problema do desemprego masculino parece maior em famílias de classe média, já que para trabalhadores do setor de serviços, a perda do vínculo empregatício significa declínio de prestígio social. "O homem que já teve um bom emprego costuma esconder dos amigos que foi demitido. A pressão é grande", conta Quinteiro. "Presenciei casos em que o casal se separou porque o homem, desempregado, acreditava ter perdido sua função em casa." Para desempregados da indústria, as crises são mais amenas. Como a expectativa social nesse setor é menor, o homem se tornou muito flexível. Se perde o emprego, não tem vergonha de contar aos conhecidos, que talvez possam ajudá-lo a encontrar quem precise de um pintor, encanador ou mecânico.
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Desemprego tem menos impacto familiar no setor industrial | | |
Nenhum dos dois grupos demonstrou preconceito em relação à entrada da mulher no mercado. Porém, a sociedade em geral ainda reserva a ela os afazeres domésticos, apesar de sua crescente participação no mercado de trabalho. Até nos diversos casos em que é maior que o dos maridos, o salário das mulheres ainda é visto como uma ajuda complementar em casa; atribui-se ao homem a função de sustentar a família. Quando perde o emprego, a mulher não é mal vista por seu círculo social. "Ela pode estar insatisfeita por ter que abrir mão do seu conforto, mas não se sente pressionada a arrumar logo uma nova fonte de renda e aproveita o tempo livre para cuidar de filhos e casa", diz Quinteiro. Assim, o desemprego feminino não representa uma ameaça à organização familiar.