SOMENTE NO ACERVO
DA REVISTA CH
 
   
   
   
   
   
   
   
 
 
 NOTÍCIAS :: SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA

A guerra que aproxima
Livro relata história dos parakanã e descreve seus conflitos sob ótica inovadora

Remanescentes dos tupi-guarani, os índios parakanã viviam entre os rios Xingu e Tocantins até aproximadamente 1890, quando uma disputa por mulheres cindiu o grupo. Os blocos oriental e ocidental então se diferenciaram e se tornaram inimigos de guerra. Resistiram ao contato com o homem branco até 1971 (época da construção da Transamazônica), quando o bloco oriental foi submetido à administração estatal.

Bebê parakanã ocidental com pintura de onça-pintada (fotos: Carlos Fausto)


Após dez anos de estudo, o antropólogo Carlos Fausto reconstruiu um século de vida dos paranakã no livro Inimigos Fiéis - história, guerra e xamanismo na Amazônia. O texto é uma adaptação de sua tese de doutorado, apresentada em 1997 no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O livro traz 500 páginas de relato exaustivo da história e tradições dos parakanã e tece uma comparação com outros indígenas sul-americanos.

Fausto examina o desenvolvimento de traços distintivos entre os dois blocos e procura desfazer equívocos no modo como costumamos pensar os indígenas após o contato com o branco. "Houve processos de recriação e transformação sociocultural que não podem ser compreendidos como mera decadência", pondera.

Após a cisão, os parakanã ocidentais abandonam progressivamente a agricultura e se tornam cada vez mais nômades, voltados para a caça e a guerra. O resultado foi uma maior ’igualdade’ entre homens e mulheres. O inverso ocorre no bloco oriental, cujo sistema político baseia-se na solidariedade masculina e na conseqüente exclusão das mulheres. "Os papéis de gênero se mantiveram entre os orientais mesmo após o contato com a Funai", conta Fausto. "Já os homens ocidentais passaram a realizar várias atividades que eram atribuições femininas."

O autor inova ao descrever o xamanismo e os conflitos entre os dois blocos sob a ótica da "predação familiarizante", que torna os inimigos fiéis -- próximos e necessários como parentes. "Tentei mostrar que a relação que passa a existir entre o matador e o espírito da vítima não é de hostilidade, mas de controle e proteção", esclarece. "No pensamento indígena, matar um inimigo não é simplesmente acabar com sua vida, mas estabelecer um novo tipo de relação com o inimigo morto." Após o homicídio, o matador passa por um período de resguardo do qual emerge mais forte e perigoso, por conter em si a subjetividade da vítima.

Carlos Fausto começou a pesquisar os parakanã em 1988. Para ele, o primeiro desafio de reconstruir a história de um povo indígena a partir da oralidade é o aprendizado lingüístico, difícil e demorado. "A dificuldade é entender como um determinado grupo humano concebe a temporalidade", considera. "É preciso certa inventividade metodológica para transformar um conjunto de narrativas orais em uma história escrita."

Inimigos fiéis - história, guerra
e xamanismo na Amazônia
Carlos Fausto
Edusp, São Paulo, 2001
587 páginas; R$ 42,00

Raquel Aguiar
Ciência Hoje On-line
06/08/01

 
  INÍCIO O INSTITUTO CH ON-LINE REVISTA CH CH DAS CRIANÇAS APOIO À EDUCAÇÃO CONTATO