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 NOTÍCIAS :: SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA

Ciências humanas em luto 
Morre o sociólogo francês Pierre Bourdieu, o mais eminente intelectual de esquerda

O mais eminente intelectual da esquerda atual; responsável pela renovação da sociologia nos anos 1960; crítico contumaz do neoliberalismo, da globalização e da mídia; o sociólogo estrangeiro mais citado em trabalhos acadêmicos no Brasil. Todas essas caracterizações se aplicam a Pierre Bourdieu -- e dimensionam a lacuna que sua morte deixa para as ciências humanas. O francês faleceu a 23 de janeiro em Paris aos 71 anos devido a um câncer.

Bourdieu criticou a universidade e os intelectuais, mas ocupava altas posições na academia; embora criticasse a mídia, era presença constante em jornais erevistas - postura paradoxal criticada por adversários e defendida por seguidores


Bourdieu renovou a sociologia ao explorar temas como literatura, arte, ciência, educação e lingüística. Escreveu um dos dez mais importantes trabalhos da sociologia no século 20 segundo a Associação Mundial de Sociologia -- A Distinção: crítica social do julgamento (1979), que observa a relação entre classes sociais e preferências pessoais. Localizado como ele próprio definia "à esquerda da esquerda" do espectro político, Bourdieu seguiu a tradição francesa imortalizada por Jean-Paul Sartre (1905-1980) de intelectual politicamente engajado com o papel de contra-poder crítico para garantir a democracia.

Nascido em uma família camponesa na cidade de Denguin em 1o de agosto de 1930, Bourdieu iniciou a carreira como professor de filosofia em Paris e lecionou letras na Argélia em 1958, quando eclodia o movimento de independência desse país que foi tema de seu primeiro livro e tese de doutorado. Publicou Os herdeiros - os estudantes e a cultura, uma crítica ao ensino universitário francês escrita com Jean-Claude Passeron, quatro anos antes do movimento estudantil de 1968.

Bourdieu foi diretor de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales entre 1964 e 2001, onde criou o Centro de Sociologia Européia. Editou publicações especializadas (como Actes de la recherche, marco nas ciências sociais), e se preocupou com o resgate de autores pouco publicados. Tornou-se professor-titular de sociologia no Collège de France em 1981.

Capa de três das obras de Bourdieu editadas no Brasil


A miséria do mundo (1993) trouxe projeção internacional ao militante que apoiaria o movimento antiglobalização e as greves de 1995 contra mudanças na seguridade social. Bourdieu fundou a editora Liber/Raisons d’agir em 1996, com a intenção de publicar livros baratos que estimulassem a participação política. A mesma intenção moveu a criação do caderno Liberté, no jornal Le Monde, onde publicava seus textos antes de editá-los em livros.

Bourdieu viria ao Brasil pela primeira vez em maio, para participar de um seminário a convite da Editora Vozes, que programa a tradução do clássico A distinção. "Há duas semanas ele cancelou a viagem", conta Andréa Daher, organizadora do seminário e professora de História na Universidade Federal do Rio de Janeiro. "Ele sugeriu enviar um vídeo, mas partiu cedo demais." Bourdieu começou em 2001 a se desligar de suas atividades acadêmicas, provavelmente devido à doença, não divulgada à imprensa. No entanto, segundo colegas próximos, o professor corrigia trabalhos de seus colaboradores mesmo em seus últimos dias no leito do hospital.

Raquel Aguiar
Ciência Hoje On-line
28/01/02

 
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