A cidade já foi exaltada como espaço privilegiado do progresso e da modernidade. A Paris do ’século das luzes’ é a expressão máxima dessa visão. Em contrapartida, hoje o espaço urbano está também vinculado à idéia de desordem e caos. A vida na cidade já teve avaliações diferenciadas ao longo de sua consolidação no ocidente. Essa pluralidade de visões pode ser a base para se compreender algumas particularidades de grupos sociais formados nesses espaços urbanos em diferentes períodos e locais.
O livro Cidade: história e desafios, organizado pela socióloga Lúcia Lippi Oliveira, pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), problematiza a vida urbana no Brasil a partir da organização espacial das cidades. A obra é resultado do seminário "Cidade: urbanismo, patrimônio e cidadania", realizado na FGV em agosto de 2001. Ao longo de 16 artigos, o tema tem tratamento abrangente, garantido pela origem acadêmica variada dos autores -- antropólogos, historiadores e arquitetos, entre outros.
Os estudos sobre a vida urbana têm se multiplicado nos últimos 30 anos. Uma das razões é traduzida pelo escritor Italo Calvino (cujas palavras foram usadas como epígrafe do livro), quando diz que "de uma cidade, não aproveitamos suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas as respostas que dá às nossas perguntas". Sabe-se, por exemplo, que esculturas e monumentos conferem aos espaços uma dimensão simbólica antes inexistente. No Rio de Janeiro, o sambódromo ou a estátua da liberdade na Barra da Tijuca deram nova dimensão social aos locais onde foram construídos. Cabe questionar como esses símbolos refletiriam a sociedade contemporânea.
A definição do patrimônio urbanístico de uma cidade também revela ideais particulares de determinada época. O artigo do antropólogo José Reginaldo Santos Gonçalves, por exemplo, encara os patrimônios culturais como um gênero de discurso repleto de significados, já que a leitura estética do urbano variou muito durante a construção das cidades brasileiras.
Um dos aspectos mais emblemáticos da sociedade atual é o processo de favelização. No livro, dois artigos mostram como a favela ’venceu’ políticas governamentais, empenhadas a princípio em extinguir o problema, e depois em removê-lo para locais distantes. Hoje, as soluções propostas para o processo de favelização não enfatizam mais sua erradicação, mas sua consolidação com projetos urbanísticos específicos. Os autores mostram como variou, nesse processo, o papel de diferentes atores sociais como associações de moradores e ONGs.
A cidade do Rio de Janeiro ganhou atenção especial em diversos textos, por ter sido capital do país até 1960. Mas a variedade das abordagens deve atrair o gosto dos mais diferentes leitores. O que compromete um pouco o ritmo da leitura é a estrutura de alguns trabalhos, carregados de formalismos acadêmicos. Mas a paciência dos leigos será recompensada.
|
Cidade: história e desafios Lúcia Lippi Oliveira (org.) Rio de Janeiro, 2002, Editora FGV 295 páginas - R$ 25 |