Os profissionais da saúde mental têm buscado reintegrar à sociedade as Pessoas Portadoras de Sofrimento Psíquico (PPSP), até há pouco tempo conhecidas como ’doentes mentais’. A mudança da nomenclatura oficial adotada pela Organização Mundial de Saúde é um importante passo na construção de uma relação saudável entre as pessoas consideradas normais e as ditas ’loucas’.

Nesse contexto, um estudo recente investigou como o imaginário social concebe a loucura e como esse conceito afeta a relação entre indivíduos ’normais’ e PPSP na cidade de Campos dos Goytacazes (RJ). A pesquisa é resultado do mestrado em sociologia da psicóloga Maria do Socorro Malatesta Freitas, defendido no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).
O estudo foi realizado em dois tempos. Primeiramente, a psicóloga fez um levantamento de textos jornalísticos referentes aos loucos no diário Monitor Campista e em pequenas revistas, nos anos de 1942, 44 e 47. "Nesse período o centro urbano de Campos se modernizou, os chiqueiros foram retirados das ruas e foram construídos o primeiro hotel e o hospital psiquiátrico", justifica.
A análise da linguagem adotada na imprensa antes e após a reforma mostram a mudança no comportamento da sociedade em relação aos loucos. Até o início dos anos 1940, eram chamados tipos populares[1]. "Tratava-se de figuras conhecidas, tidas como inofensivas e engraçadas, motivo de orgulho para os habitantes", conta Freitas. "Fotos e histórias deles eram publicadas anualmente na seção ’Galeria dos tipos populares’ do Almanaque da Cidade de Campos."
Após a implantação do hospital psiquiátrico, os tipos que ’divertiam’ passaram a preocupar a população. "Os textos revelam um movimento a favor da internação -- retirar os loucos das ruas passa a ser condição para ’limpar a cidade’", diz. Um dos trechos do jornal se refere a eles como "infelizes que vagueiam pelas ruas de Campos".
Segundo Freitas, isso ocorreu ao mesmo tempo em que a categoria ’doente mental’ foi criada pelos psiquiatras, em um movimento cuja mais grave conseqüência foi o alto índice de hospitalização desses indivíduos. Embora existam hoje movimentos de combate aos manicômios, ainda persiste uma certa indiferença social: "a sociedade atribuiu ao Estado o dever de cuidar desse ’problema social’ e deixou de se solidarizar com ele".
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Pacientes do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (MG) (fotos: Bernardo Esteves/1999) | | |
Na segunda parte do estudo, Freitas avalia a relação entre loucura e normalidade atualmente, a partir do estudo de dez casos de PPSP apontados pelos habitantes de Campos. Entre eles, estão indivíduos com diferentes diagnósticos psiquiátricos (epilépticos, esquizofrênicos, dependentes químicos etc.) com um único denominador comum: a passagem pelo hospital psiquiátrico.
"A noção de loucura está ligada à internação", constata ela. "Indivíduos que já foram internados têm sérios problemas de reintegração, não obtêm trabalho e ficam estigmatizados na sociedade." Freitas adverte que a reintegração das PPSP depende de um esforço da rede social."Há uma tolerância em relação aos loucos, mas ela apenas contribui para atualizar os mecanismos de exclusão."