Desodorantes, dentifrícios, sabonetes, tábuas de cortar, brinquedos para bebê, alguns tapetes, meias e roupas de baixo têm algo em comum: contêm triclosan, um reagente que destrói bactérias. Facilmente adicionado a líquidos, tecidos e superfícies sólidas, o germicida tem sido cada vez mais usado desde sua introdução, há três décadas. Mas a ampla penetração da substância pode ter seu preço. O alerta foi dado pela pesquisadora Maura J. Meade, da Faculdade de Allegheny, em Meadville (EUA), cujos estudos apontam que a disseminação do triclosan deve estimular a evolução de bactérias resistentes.
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A bactéria Pseudomonas aeruginosa criou resistência ao triclosan | | |
Acreditava-se que os microorganismos não podiam desenvolver resistência ao triclosan, pois ele as destruiria de múltiplas maneiras em vez de visar uma única proteína, como faz a maioria dos antibióticos. Entretanto, nos últimos anos, biólogos descobriram que a ação do composto é muito específica: ele inibe uma enzima envolvida na síntese de ácidos graxos. Foi demonstrado também que algumas bactérias com mutações no gene dessa enzima podem resistir ao triclosan.
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Fórmula química do triclosan | | |
O pesquisador Herbert Schweizer, da Universidade Estadual do Colorado (EUA), descobriu também que quase todas as cepas da bactéria Pseudomonas aeruginosa, que atinge pessoas com sistemas imunológicos fracos, impedem a ação do germicida com "bombas de efluxo", que retiram o anti-séptico e outras substâncias tóxicas do interior do microorganismo. Quando Schweizer provocou a mutação do gene desse mecanismo, as bactérias rapidamente recuperaram sua defesa aumentando a produção de outras bombas similares.
Um outro cientista, Peter Gilbert, da Universidade de Manchester (Inglaterra), observou que as superfícies duras impregnadas com triclosan liberam lentamente o composto. Isso poderia expor as bactérias a concentrações inofensivas do reagente, o que promoveria a resistência dos microorganismos. Para preservar a eficácia do germicida, Gilbert argumenta que ele só deveria ser usado quando fosse demonstrado seu benefício para a saúde. Segundo ele, poucos fabricantes podem provar isso.
Meade e sua equipe encontraram várias cepas de bactérias que facilmente se desenvolvem no triclosan, e uma que até pode usar o composto como fonte de energia. Segundo os pesquisadores, o excesso de uso do germicida vai reduzir seu tempo de reação. Considerando que bactérias freqüentemente adquirem características umas das outras pela troca de genes, Meade acredita que o triclosan está com os dias contados.