Duas cepas de bactérias que vivem em ambientes terrestres hostis foram levadas ao espaço e sobreviveram à exposição ao vácuo e à radiação solar ultravioleta distante, que não penetra na atmosfera terrestre. A experiência inédita foi desenvolvida por pesquisadores do Centro de Biotecnologia Marinha da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. A descoberta fortalece a teoria segundo a qual a vida primitiva poderia ter sido transportada entre a Terra e outros planetas por meio de fragmentos de meteoritos.
 |
|
A As bactérias Deinococcus radiodurans suportam uma radiação até 100 vezes mais forte que o nível capaz de matar um ser humano | | |
As bactérias foram levadas ao espaço a bordo de um foguete suborbital lançado no último dia 26 de julho pela Agência Espacial Norte-Americana (Nasa). As amostras foram divididas em duas culturas de cada cepa. Uma foi exposta ao vácuo e à radiação solar direta; a outra foi protegida da radiação. Os micróbios de uma cepa voltaram do espaço aparentemente incólumes; da outra, restaram apenas poucos sobreviventes. O vôo espacial durou cerca de 10 minutos e chegou a uma altura aproximada de 320 quilômetros. Jocelyne DiRuggiero, pesquisadora que coordenou o projeto, resgatou as amostras e vai tentar estimular o crescimento de novas colônias a partir das células sobreviventes.
As bactérias que sobreviveram com maior facilidade pertencem à espécie Deinococcus radiodurans, conhecida por suportar uma radiação até 100 vezes mais forte que o nível suficiente para matar um ser humano. O número de células diminuiu cerca de mil vezes. Como a colônia original continha centenas de milhões de células, tal taxa de sobrevivência seria suficiente para que elas se recuperassem totalmente.
As outras bactérias pertencem a uma espécie ainda sem nome, recém-descoberta no Parque Nacional Yellowstone, nos EUA. Análises de DNA mostraram que elas são semelhantes às Archaea, uma forma antiga de vida comum em ambientes quentes e conhecida por sobreviver a condições extremas. Astrobiólogos acreditam que tais organismos poderiam ter sobrevivido em Marte em tempos remotos e poderiam existir ainda hoje em água líquida profunda sob a superfície do planeta. DiRuggiero escolheu essa bactéria por ter conseguido verificar em laboratório sua resistência ao vácuo artificial e à radiação ultravioleta. Uma primeira análise ao microscópio deu a impressão de que os micróbios haviam morrido devido ao vácuo: as células pareciam ter sido queimadas e divididas em pedaços. Entretanto, poucos dias depois, pequenas colônias surgiram a partir da amostra original.
O próximo passo dos pesquisadores será examinar o DNA das bactérias levadas ao espaço para verificar como ele pode ter sido alterado pela radiação.