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 NOTÍCIAS :: MICROBIOLOGIA

Identificado mecanismo de infecção de bactéria
Proteína permite que Listeria atravesse parede intestinal e atinja corrente sangüínea

A forma como a bactéria Listeria monocytogenes passa do intestino para a corrente sangüínea para atingir diferentes tecidos do organismo foi identificada por pesquisadores do Instituto Pasteur, em Paris, coordenados por Pascale Cossart. Quando contraído pela ingestão de alimentos contaminados, o microrganismo pode causar a listeriose. A descoberta, publicada na revista Science em 1o de junho, pode levar ao desenvolvimento de novos tratamentos para a doença.

Bactérias L. monocytogenes (coloridas artificialmente de verde) entram em
uma célula intestinal humana em cultura (azul) - imagens: Institut Pasteur


Encontrada no solo ou na vegetação, a Listeria pode contaminar legumes crus, pratos cozidos prontos para o consumo e até alimentos refrigerados, pois suporta bem temperaturas baixas. A listeriose, embora pouco freqüente, ameaça sobretudo crianças por nascer, recém-nascidos, grávidas, idosos e pessoas com o sistema imune deficitário. Ela pode levar à meningite e matar em alguns casos. Em adultos sãos, os sintomas são em geral menos graves, indo da gastroenterite a febre baixa e dores de cabeça.

Em uma pessoa infectada, a L. monocytogenes passa pelo estômago, atravessa o intestino e atinge a circulação sangüínea para se disseminar no sistema nervoso central ou na placenta. Até aqui, não se conheciam os mecanismos moleculares que permitem ao microrganismo atravessar a barreira intestinal. Em estudos anteriores, Cossart e colegas haviam identificado, em células intestinais humanas em cultura, a interação entre uma proteína presente na superfície da bactéria (a ’internalina’) e um receptor localizado na superfície das células (a E-caderina). Os pesquisadores descobriram agora que a internalina é um dos primeiros fatores a entrar em ação e que ela interage com a E-caderina para permitir ao micróbio entrar nas células intestinais, atravessar a parede intestinal e atingir a corrente sangüínea.

Os pesquisadores estudaram os mecanismos de infecção da bactéria em porcos-da-índia e camundongos geneticamente modificados para exprimir a caderina humana nas células intestinais. Os animais foram infectados por via oral por bactérias selvagens e mutantes (que não exprimiam a internalina). A Listeria que exprimia essa proteína provocou infecção mortal e a mutante não pôde atravessar a barreira intestinal e invadir o resto do organismo.

Corte do intestino de um camundongo transgênico que exprime a
E-caderina humana infectado 24 horas antes pela L. monocytogenes.
As bactérias (em vermelho) conseguiram atravessar a ’barreira intestinal’


Segundo os pesquisadores, a descoberta não possibilitará de imediato o desenvolvimento de novos tratamentos para a listeriose. "Várias questões permanecem sem resposta", afirma Pascale Cossart. Eles querem saber exatamente como a internalina atinge seu receptor, a E-caderina, que é uma proteína relativamente inacessível. A médio termo, eles esperam também aprender como a Listeria atravessa outras barreiras do corpo humano para atingir o cérebro ou infectar a placenta. "Células que exprimem a E-caderina estão presentes na barreira hemato-encefálica e na placenta, mas o papel da internalina nesses níveis não é conhecido ainda", afirma Cossart.

Bernardo Esteves
Ciência Hoje On-line
01/06/01

 
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