Novas pistas sobre a forma como o parasita causador da doença de Chagas (Trypanosoma cruzi) invade células foram encontradas em uma pesquisa realizada na Universidade de São Paulo (USP) pela pós-doutoranda Margaret Magdesian e sua coordenadora, Maria Júlia Manso Alves. Magdesian estudou a interação entre o protozoário e as células de mamíferos hospedeiros. Conhecer os mecanismos envolvidos nessa relação favorece o desenvolvimento de novas terapias para combater a doença.
O trabalho identificou uma família de moléculas presentes na superfície do parasita -- denominada Tc85 -- que participa do processo de invasão celular. As pesquisadoras trabalharam em específico com um membro dessa família -- a Tc85-11. Elas isolaram e clonaram essa proteína e, assim, puderam caracterizar também seu receptor na superfície das células hospedeiras.
O T. cruzi depende de células do hospedeiro para sobreviver. O barbeiro -- hospedeiro invertebrado -- pica mamíferos e elimina parasitas infectantes, juntamente com urina e fezes, nas proximidades da picada. Ao coçar a região, os mamíferos produzem ferimentos pelos quais os parasitas penetram. Já no organismo do mamífero, o parasita circula pelo sangue e invade diferentes células do hospedeiro, dentro das quais pode se reproduzir. O barbeiro se contamina ao picar um mamífero infectado, o que completa o ciclo de vida do T. cruzi.
Para evitar que esse ciclo se feche e, dessa forma, combater a doença de Chagas, é preciso conhecer o mecanismo pelo qual o parasita entra nas células hospedeiras. Magdesian incubou células de rim de macaco com um fragmento da molécula Tc85-11 e verificou alterações nessas células. "Elas ficavam mais suscetíveis à invasão pelo parasita", relata a pesquisadora. "Nossa hipótese é que as moléculas Tc85 presentes na superfície do T. cruzi, ao se ligarem a receptores específicos na membrana das células hospedeiras, promovem uma sinalização que fragiliza o esqueleto celular e facilita a entrada do parasita."
Bloquear o acesso do protozoário aos receptores seria uma estratégia para impedir a invasão das células. Porém, o T. cruzi está sempre sintetizando novas moléculas de superfície e isso dificulta bastante esse bloqueio. "Estamos investigando a sinalização desencadeada pela adesão do parasita à célula do hospedeiro em busca de um novo alvo para o tratamento da doença", revela Magdesian.
Hoje, existe no mercado um medicamento que pode ser eficaz em casos de doença de Chagas, mas são muitos os seus efeitos colaterais. O controle da propagação dessa doença depende do uso de inseticidas que reduzam a população de barbeiros, do cuidado com o sangue utilizado para transfusão, do desenvolvimento de fármacos e vacinas. Não pode haver descontinuidade nos programas de erradicação. "Esse tipo de controle em países do tamanho do Brasil é bastante complicado", afirma a pesquisadora. "É grande o interesse pela avaliação em nível molecular da interação entre o T. cruzi e célula hospedeira."