Uma alternativa no controle de larvas aquáticas de mosquitos transmissores de doenças como malária e dengue tem sido implantada na Amazônia em substituição à aplicação do larvicida químico normalmente adotado. É o controle biológico, que utiliza bactérias para eliminar as larvas dos insetos.
 |
|
Larvas de mosquistos como o Anopheles darlingi (foto) podem ser combatidas por concentrados líquidos da bactéria Bacillus thuringiensis | | |
O método consiste na aplicação nas lagoas de um concentrado líquido do Bacillus thuringiensis da subespécie israelensis, microrganismo que tem gerado bons resultados no controle de insetos. O bacilo produz uma proteína (alfa-endotoxina) que, ao ser ingerida pelas larvas dos pernilongos (gênero Culex) e dos mosquitos transmissores da malária (Anopheles darlingi) e da dengue (Aedes aegypti), causa parada da ingestão, convulsões e a morte das larvas.
O geneticista Wanderli Pedro Tadei, coordenador de pesquisas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), esclarece que a proteína é produzida no interior do cristal protéico (protoxina) que o bacilo libera durante seu ciclo reprodutivo. "A protoxina é o componente principal dos produtos comerciais alternativos à base de B. thuringiensis." Fora do aparelho digestivo, ela não é tóxica às larvas, pois para se romper, precisa estar em meio alcalino, com pH maior que 8. O intestino médio das larvas de pernilongos e dos transmissores de malária e dengue apresenta esse nível de pH e oferece as condições para a liberação da proteína.
A maioria dos outros insetos não apresenta no intestino o nível de pH necessário à dissolução da protoxina. Mesmo que ingerido por eles, o cristal não é rompido e não causa danos. Portanto, o larvicida bacteriano não afeta a fauna associada. Normalmente encontrado na natureza, o B. thuringiensis é isolado pelos pesquisadores que aumentam sua concentração em laboratório por meio de fermentadores. "A fermentação é controlada e não existe risco de que o crescimento do número de bactérias cause desequilíbrio ambiental", afirma Tadei.
O larvicida bacteriano pode substituir o Abate -- larvicida organofosforado geralmente usado contra as larvas. Segundo Tadei, além dos insetos-alvo, o Abate elimina também insetos inofensivos e pode intoxicar as águas das lagoas. Apesar de os custos com os larvicidas serem muito próximos, o microbiano é uma alternativa mais segura.
O bacilo já é utilizado desde 1977 no controle de larvas de insetos filtradores -- que se alimentam de detritos existentes na água e por isso se reproduzem e desenvolvem em lagoas. Sua eficiência no controle em ambientes urbanos e áreas malarígenas tem sido comprovada em trabalhos realizados em diversos países.
No Brasil, o primeiro curso sobre larvicidas bacterianos foi realizado entre 22 e 29 de outubro em Manaus. Iniciativa do Inpa, da Fundação Nacional de Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz, o curso treinou profissionais da área de saúde e atendeu o curso de pós-graduação em entomologia do Inpa, que desenvolve trabalhos com mosquitos vetores de doenças tropicais.