SOMENTE NO ACERVO
DA REVISTA CH
 
   
   
   
   
   
   
   
 
 
 NOTÍCIAS :: MICROBIOLOGIA

Roedores são hospedeiros naturais de leishmaniose
Descoberta pode ajudar a entender ciclo da forma mais comum da doença no Brasil

Foram identificados pela primeira vez os mamíferos silvestres naturalmente infectados pelo protozoário Leishmania (Viannia) braziliensis, causador da leishmaniose tegumentar americana -- a forma mais disseminada de leishmaniose na América Latina. A identificação do rato-do-mato (Bolomys lasiurus) e do rato-preto (Rattus rattus) como hospedeiros do microrganismo pode permitir aos pesquisadores entender melhor o ciclo do parasita na natureza. A descoberta foi feita na região sul da Zona da Mata de Pernambuco por Sinval Brandão Filho, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz em Recife, e Jeffrey Jon Shaw, parasitologista da Universidade de São Paulo.

Rato-preto (Rattus rattus, esq.) e rato-do-mato (Bolomys lasiurus), hospedeiros
do parasita causador da leishmaniose tegumentar americana


A leishmaniose tegumentar americana é transmitida ao homem quando ele é picado por mosquitos vetores (algumas espécies do gênero Lutzomyia) que carregam o protozoário após picarem o hospedeiro silvestre. A doença pode se apresentar de duas formas clínicas: a cutânea, que provoca feridas na pele (de pequenas lesões a grandes ulcerações), e a cutâneo-mucosa, mais grave, que provoca ulcerações que destroem as cartilagens e mucosas da boca, do nariz e da garganta e deformam a face do paciente. Não se conhecia até aqui o hospedeiro primário da doença.

O trabalho dos pesquisadores consistiu na captura de 588 mamíferos silvestres, entre roedores e marsupiais, 460 dos quais foram examinados (o restante morreu antes de chegar ao laboratório). Amostras do baço e da pele desses animais foram submetidas à técnica de reação em cadeia de polimerase (PCR), que consiste na amplificação de fragmentos do DNA do parasita encontrados em tecidos dos hospedeiros. Os cientistas identificaram a presença do protozoário do subgênero Leishmania (Viannia) em 18% das cobaias, de 11 espécies diferentes.

Para confirmar a espécie de Leishmania isolada em seis exemplares dos roedores, os pesquisadores realizaram testes que permitiram identificar se se tratava de L. (V.) braziliensis. Os resultados mostraram que em cinco espécimes do rato-do-mato e um do rato-preto o protozoário isolado pertencia à espécie procurada. Acredita-se também que uma terceira espécie (o rato-da-água -- Nectomys squamipes) seja hospedeira do parasita, mas testes ainda são necessários para confirmar a suspeita.

 Suspeita-se que também o rato-da-água (Nectomys squamipes) seja hospedeiro do parasita


"A L. (V.) braziliensis ainda não havia sido isolado em nenhum mamífero silvestre", afirma Sinval Brandão. "Conhecer o hospedeiro primário permitirá entender melhor o desenvolvimento dessa doença tão comum no Brasil." Jeffrey Jon Shaw, orientador do estudo, afirma que o próximo passo é comprovar se o rato-do-mato e o rato-preto também são hospedeiros do protozoário em outras regiões do país. "Cada local tem espécies diferentes de roedores", afirma. "Por isso, há a possibilidade de o ciclo do parasita envolver outros hospedeiros."

Caroline Vilas Bôas
Ciência Hoje On-line
05/12/01

 
  INÍCIO O INSTITUTO CH ON-LINE REVISTA CH CH DAS CRIANÇAS APOIO À EDUCAÇÃO CONTATO