Um estudo realizado por pesquisadores da Instituição Carnegie, em Washington (EUA), provou que bactérias comuns da Terra resistem a altas pressões. A descoberta de que a Escherichia coli e a Shewanella oneidensis podem sobreviver em condições semelhantes às encontradas nos oceanos de Europa e outras luas de Júpiter amplia o campo de busca pela vida nos corpos do Sistema Solar.
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As bactérias Escherichia coli (foto) e Shewanella oneidensis resistem a uma pressão 16 mil vezes maior que a do nível do mar | | |
Publicada na revista Science de 22 de fevereiro, a pesquisa mostrou que as bactérias resistiram a 1680 MPa (unidade de medida padrão de pressão), que equivale a uma profundidade de 50 Km abaixo da superfície da Terra ou de 160 Km em um hipotético oceano. "Pressões de 100 MPa a 1600 MPa podem ocorrer em inexploradas regiões do interior da crosta terrestre, em Marte, nas luas de Júpiter e em outros corpos planetários", observa o geoquímico Anurag Sharma, chefe da equipe que realizou a descoberta. A alta pressão era um dos principais argumentos dos cientistas contra a existência de seres vivos fora da Terra. "É importante destacar que a vida pode ser viável em um amplo raio de pressão", completa.
As bactérias conseguiriam sobreviver em condições semelhantes
às dos oceanos das luas de Júpiter (foto)
A E. coli é comumente encontrada no intestino humano e a S. oneidensis, no lago Oneida, no estado de Nova York. Segundo Sharma, o aspecto mais interessante da descoberta é o fato dessas bactérias habitarem a superfície da Terra, ao contrário das extremófilas -- como as presentes em camadas de gelo da Antártida --, que se adaptam e sobrevivem a ambientes inóspitos.
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As bactérias conseguiriam sobreviver em condições semelhantes às dos oceanos das luas de Júpiter (foto) | | |
As bactérias foram submetidas à pressão gerada por uma autoclave, equipamento que propicia alta tensão. Sharma e sua equipe monitoraram o metabolismo dos microrganismos por meio de um aparelho chamado espectroscópio molecular para saber se ainda permaneciam vivos. A E. coli e a S. oneidensis se alimentam de formiato (um tipo de sal) que, ao ser convertido em CO2 e hidrogênio, produz energia. Mesmo sob pressão 16 mil vezes maior que a do nível do mar, os pesquisadores observaram que as bactérias continuaram consumindo formiato e mantiveram sua atividade biológica.
O próximo passo do estudo é a identificação dos mecanismos utilizados pelas bactérias para resistir a essas pressões. Os cientistas consideram fundamental descobrir se a sobrevivência dos microrganismos ocorreu por adaptação ou seleção e acreditam que o resultado da pesquisa levanta importantes questões sobre o impacto da pressão na evolução da vida.
Sharma -- também membro do Instituto de Astrobiologia da NASA (agência espacial norte-americana) -- gostaria que o foco das missões espaciais fosse ampliado. "Se a E. coli e a S. oneidensis são tão flexíveis, não podemos restringir a procura pela vida", argumenta. "A quantidade de energia disponível deve ser o novo parâmetro", conclui.