Populações da bactéria Escherichia coli conseguem se comunicar mesmo quando separadas fisicamente. É o que mostra um estudo realizado pelos pesquisadores Alan Parsons e Richard Heal, do Centro de Tecnologia Winfrith (Inglaterra). Seus resultados, publicados em 6 de junho no Journal of Applied Microbiology, sugerem que sinais produzidos por uma população de E. coli e lançados no ar ativam mecanismos de resistência a certos antibióticos em bactérias distantes. Os desdobramentos desse trabalho poderiam ajudar a combater bactérias resistentes a drogas e prevenir infecções hospitalares.
Pesquisas anteriores já haviam mostrado que bactérias em meio líquido interagem entre si pela liberação de substâncias químicas. No entanto, o estudo desenvolvido pelos cientistas ingleses é o primeiro a sugerir a comunicação entre bactérias pelo ar. Somente a E. coli, que normalmente é encontrada no intestino humano e não causa doenças, foi usada nos experimentos. No entanto, é possível que outras bactérias, responsáveis por enfermidades graves, também consigam se comunicar à distância.
Em experimentos, os pesquisadores utilizaram um recipiente de vidro dividido em dois compartimentos, entre os quais havia um orifício que permitia somente a passagem do ar. Primeiramente, uma das partes ficou vazia e, na outra, colocou-se uma população de E. coli em meio com antibióticos. Como já era de se esperar, as bactérias começaram a morrer. No entanto, quando a parte vazia foi preenchida com uma população de E. coli em meio sem antibióticos, as bactérias no outro compartimento não só sobreviveram como passaram a se multiplicar.
Para explicar o fenômeno observado, os cientistas chegaram a levantar a hipótese de que as bactérias trocariam sinais eletromagnéticos. Porém, logo perceberam que estavam enganados: ao fechar o orifício que ligava os dois compartimentos, observaram que as bactérias no meio com antibióticos morriam. Assim, concluíram que a indução de resistência a antibióticos dependia da passagem de ar.
Os cientistas verificaram se os sinais trocados entre populações bacterianas isoladas eram capazes de conferir resistência a quatro antibióticos. Observaram que esses sinais só conseguiam ativar os mecanismos de resistência a três drogas, ou seja, um dos antibióticos continuou eficaz apesar da comunicação bacteriana à distancia.
Segundo o artigo do Journal of Applied Microbiology, "sistemas de sinalização intercelular existentes em bactérias permitem que a resistência a antibióticos seja transmitida entre populações fisicamente separadas", porém "a natureza exata dessa sinalização ainda não foi determinada".