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[1] Isolada e de difícil acesso, a Reserva de Mamirauá (que em língua tupi significa filhote de peixe-boi), localiza-se a 600 quilômetros de Manaus. É uma região de 1,1 milhão de hectares com 60 comunidades e cerca de cinco mil habitantes.

 
 NOTÍCIAS :: MICROBIOLOGIA

A flora bucal dos jacarés da Amazônia
Cientistas identificam bactérias e apontam tratamento de emergência para mordidas

Estima-se que existam na Amazônia cerca de 25 milhões de jacarés adultos. Esses répteis foram responsáveis por 71 acidentes com humanos registrados junto ao Ibama entre janeiro de 1990 e setembro de 2001. Embora o número seja pequeno diante do tamanho da população, as mordidas de jacaré constituem um problema para os pescadores da região -- a maior bacia hidrográfica do planeta. As vítimas podem demorar mais de um dia para chegar a centros equipados para tratar dos ferimentos. Em alguns casos as lesões infeccionam e os feridos chegam a perder o membro atingido. O problema aumenta no início do ano, época das cheias.

Coleta de saliva de jacaré para identificação da flora bucal


Além do enorme estrago -- um jacaré chega a medir 4 metros e pesar 270 quilos --, as mordidas podem transmitir inúmeras espécies de bactérias que vivem na boca do réptil e provocar uma série de doenças. Identificar esses microrganismos e encontrar um tratamento de emergência para as feridas foi o objetivo de um estudo realizado no Centro de Pesquisas Leônidas e Maria Deane, unidade da Fundação Oswaldo Cruz em Manaus.

Os pesquisadores identificaram os patógenos encontrados na flora bucal das quatro espécies de jacarés que mais atacam os pescadores: tinga, açu, pagua e coroa. Foram encontrados sete tipos de bactérias. Algumas bastante comuns, como a Pseudomonas cloacae, a Escherichia coli e a Enterobacter cloacae, encontradas também no solo, na água ou em alimentos orgânicos em decomposição. Elas podem provocar gastrenterite, infecções intestinais e de pele, além de lesões cutâneas -- inclusive gangrena.

Lesão provocada por mordida de jacaré na Amazônia

O ortopedista Fernando Abreu de Sá, do Hospital Universitário Getúlio Vargas, ligado à Universidade do Amazonas, coletou da boca dos animais treze amostras de saliva. Capturar um jacaré exige um esforço extremo: são necessários cerca de cinco homens na operação, que pode demorar mais de uma hora. As amostras foram coletadas na Reserva de Mamirauá [1], no município de Tefé (AM), região onde são comuns relatos de mordidas.

Uma equipe coordenada pelas pesquisadoras Luciete Almeida Silva e Ana Carolina Paulo Vicente analisou necropsias realizadas em feridas de pescadores e descobriu que uma das bactérias presentes nas lesões também era encontrada na flora bucal dos jacarés: a Enterobacter cloacae.

A partir daí, os cientistas tentaram encontrar um antibiótico que combatesse a maioria das bactérias. Foi realizado um teste de identificação e sensibilidade antimicrobiana, para conferir a resistência dos microrganismos encontrados a vários antibióticos analisados. Um medicamento mostrou-se capaz de combater todos os patógenos: a neomicina, pomada antibactericida que inibe a síntese de uma proteína das microrganismos.

A neomicina poderá melhorar a vida dos pescadores de Mamirauá e da Amazônia, ao amenizar a proliferação das bactérias no longo caminho até o hospital. A aplicação do medicamento é simples e pode ser feita pelo próprio ferido logo após a primeira lavagem. Além disso, a pomada tem preço acessível e é facilmente encontrada.

Denis Weisz Kuck
Ciência Hoje On-line
16/12/02

 
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