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Biodiversidade surpreendente no Ártico
Expedição internacional encontra vida abundante em águas polares


Sob toneladas de gelo e água, em meio à escuridão total e ao frio intenso do fundo do oceano Ártico vivem diversos animais marinhos, muitos deles exóticos e desconhecidos. Foi o que comprovou a expedição Oceano Oculto, que estudou a fauna das profundezas do Círculo Polar Ártico, uma das menos conhecidas do planeta. A expedição faz parte do Censo da Vida Marinha, um esforço internacional para o mapeamento da fauna marítima, e coletou dados que também poderão servir para analisar os danos já causados ao ecossistema ártico pelas alterações climáticas do planeta.
 
Formada por 24 cientistas dos Estados Unidos, China, Rússia e Canadá, a expedição coletou amostras da vida marinha sob o gelo durante o curto verão polar – 30 dias entre os meses de junho e julho. As amostras foram obtidas em 14 localidades diferentes entre o Alasca e a costa leste da Rússia, a profundidades de até 3.300 m.
 
A biodiversidade observada impressionou os cientistas. Apesar das análises estarem apenas no início, o número de espécies desconhecidas já ultrapassa 50. Dentre elas, uma nova espécie de água-viva e os primeiros polvos e lulas encontrados na bacia do Canadá. Entre os animais recolhidos pela expedição, figuram ainda espécies conhecidas e desconhecidas de corais-vivos, pepinos-do-mar, bacalhaus, estrelas-do-mar e crustáceos. Pesquisas como essa têm explorado cada vez mais as regiões abissais – de profundidade maior que 2 mil metros – e mudado a visão dos cientistas sobre essas áreas, que eram consideradas pobres em diversidade de espécies
 
As conquistas nesse ramo de exploração se devem em parte aos avanços tecnológicos. Um dos 'brinquedos' usados atualmente pelos cientistas é um veículo de operação remota dotado de câmeras embutidas e braços mecânicos. Comandado à distância, esse pequeno robô é capaz de resistir à pressão das águas das profundezas oceânicas. “A tecnologia abriu uma janela para esse mundo fantástico”, afirmou o pesquisador Russ Hopcroft, da Universidade de Alasca-Fairbanks (UAF).
 
Os cientistas ainda não sabem o que está por trás da surpreendente diversidade de espécies encontradas durante a expedição ao Ártico. "Queremos saber se esses animais só foram encontrados agora porque não dispúnhamos da tecnologia para identificá-los ou simplesmente porque não habitavam a região no passado", ressalta Ron O'Dor, diretor científico do Censo da Vida Marinha.
 
Em razão do aquecimento global, esses seres podem ter fugido de seu hábitat natural em busca das águas geladas do Ártico. O acesso a esses mares tem sido cada vez mais fácil graças ao crescente descongelamento da região – estima-se que no ano 2.100 todo o gelo da área derreta durante o verão. “Sem a cobertura de gelo, o ecossistema fica aberto para a entrada de novas espécies”, explica Rolf Gradinger, professor da UAF e cientista-chefe da expedição.

Ano Internacional Polar
O Censo da Vida Marinha, iniciado em 2000, deve se estender até o fim da década e conta hoje com a participação de cientistas de mais de 70 países. O objetivo do projeto é mapear a biodiversidade oceânica, explicar melhor sua formação e analisar o efeito das atividades humanas nesses ecossistemas.
 
Expedições polares têm destaque no censo, uma vez que os pólos são as regiões mais sensíveis às mudanças climáticas do planeta. Estudos como o Oceano Oculto servem de aquecimento para o Ano Polar Internacional, uma colaboração que reunirá cerca de 200 cientistas de mais de 30 países, inclusive do Brasil, além de milhões em investimentos em pesquisas de ponta nos mares do Ártico e da Antártica, em 2007/08.
 
 
Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line
22/08/05

Confira imagens de algumas das espécies coletadas pela expedição. Clique nas fotos para ampliá-las.

Da ordem das narcomedusas, essa nova espécie de água-viva usa seus tentáculos cobertos de veneno para agarrar suas presas (foto:Kevin Raskoff, California State University)

Euaugaptilus hyperboreus é o nome do crustáceo microscópico acima, membro da subclasse dos copépodes (foto: Russ Hopcroft, UAF / NOAA).

Água-viva do gênero Crossota coletada por um veículo de operação remota na bacia do Canadá (foto: Kevin Raskoff/NOAA)

Anêmona-do-mar capturada por um braço mecânico na bacia do Canadá (foto: Bluhm and Iken / NOAA)

A fauna de várias áreas analisadas pelos cientistas era dominada por pepinos-do-mar como o da imagem acima (foto: Bodil Bluhm e Katrin Iken / NOAA).

 

 
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