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 NOTÍCIAS :: BOTÂNICA

Rápida no gatilho
Abertura explosiva de flor é o mais breve movimento vegetal já registrado, com 0,5 ms de duração

A Cornus canadensis é uma flor típica da taiga norte-americana (foto: Wind River Canopy Crane)

Já leu esta frase? Pois saiba que, só nessa fração de segundo, o mais breve movimento já registrado no mundo vegetal poderia ter acontecido centenas de vezes. Esse recorde pertence ao mecanismo de polinização da espécie Cornus canadensis, flor típica da taiga norte-americana: em apenas 0,5 milissegundo, ela se abre violentamente e espalha pelo ar grãos de pólen que poderão assegurar sua reprodução. O movimento foi gravado e cronometrado por cientistas da Williams College, em Massachusetts (EUA), com uma câmera capaz de capturar 10.000 quadros por segundo.
 
O recorde anterior pertencia à abertura explosiva dos frutos da planta da espécie Impatiens pallida (que leva de 2,8 a 5,5 ms). A nova marca supera também o movimento animal mais breve já registrado, o salto de insetos da família dos cercopídeos, vulgarmente conhecidos como cigarrinhas (de 0,5 a 1,0 ms).
 
Na Cornus canadensis, o filete, parte alongada do estame (órgão reprodutor masculino da flor), se encontra dobrado em forma de ‘U’, tensionado no interior da flor. As pétalas, por sua vez, encontram-se fechadas, grudadas pelas pontas. Já a antera, onde estão os grãos de pólen, fica ligada ao filete por um fino cordão vascular. “A tensão nessa estrutura aumenta com o acúmulo de água nas pétalas e no filete”, afirma a bióloga Claudia Jacobi, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Isso aumentaria a energia potencial armazenada.”

O mecanismo de polinização da flor é idêntico a uma espécie de catapulta medieval especializada em lançamento a longas distâncias: a haste do aparelho corresponde ao filete; o projétil é o equivalente dos grãos de pólen. (imagens: reprodução)


O disparo do gatilho e a liberação do pólen podem ser provocados pela ação de insetos, pelo balanço do vento ou até pela simples tensão causada pela água. Assim que o mecanismo dispara, as pétalas se abrem num movimento que dura apenas 0,3 ms. O filete é liberado rapidamente, adquirindo uma aceleração de até 24.000 m/s2 (800 vezes maior do que a necessária para colocar uma nave em órbita). O movimento do filete puxa a antera, que começa a descrever um círculo. Quando sua aceleração horizontal zera, o pólen é liberado, com uma velocidade vertical de cerca de 4 m/s. Todo o processo dura aproximadamente 0,5 ms. Depois, por ser muito leve, o pólen é rapidamente desacelerado pela resistência do ar até a velocidade de 0,12 m/s.
 

Clique na imagem acima para assistir a um vídeo que mostra em câmera lenta a explosão da flor Cornus canadensis (formato .mov, 5,3 MB). Fotos e vídeo: D. Whitaker, M. Laskowski, A. Acosta e J. Edwards.

Esse mecanismo, segundo resultados da pesquisa, publicada na revista Nature de 12 de maio, não é influenciado por alterações no metabolismo da planta. Em compensação, a viçosidade da flor é muito importante: flores murchas produziram lançamentos mais curtos e inclinados, pois estavam menos tensionadas na hora do disparo.
 
Os testes constataram, ainda, que a Cornus canadensis lança o pólen a cerca de 2,5 cm de altura, mais de 10 vezes seu próprio tamanho. Em ambiente fechado, sem ação de correntes de ar, ele atingiu um deslocamento horizontal de cerca de 22 cm. Sob a ação do vento, essa marca ultrapassou um metro. Além disso, “a força necessária para abrir as flores favorece grandes polinizadores (como as abelhas), que se movem rapidamente entre os grupos vegetais da região”, afirmam os pesquisadores, no artigo.
 
Esses resultados confirmam a idéia atualmente aceita de que as plantas lançam mão de diversos mecanismos para realizar a polinização. A distância alcançada pelos grãos de pólen permite a fertilização de áreas maiores e a relação com insetos mais fortes e, em geral, mais ágeis, espalha melhor o pólen pela região.

Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line
06/06/05

 
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