, pequenas pedras de cálcio localizadas no ouvido interno dos peixes que servem para orientação espacial. "Sabemos que a proporção de oxigênio-18 diminui à medida que a temperatura da água aumenta", explicou Andrus à CH on-line.
Foram observados peixes do tipo do bagre, comuns no período anterior a 5 mil anos, e também peixes do tipo das anchovas, numerosos após essa datação. Ao comparar os otólitos de peixes atuais com os de bagres, os cientistas descobriram que, na época em que estes animais viveram, a temperatura das águas do Pacífico peruano era mais estável e de 3 a 4°C mais alta que hoje em dia.
A análise dos otólitos de anchovas indicou as condições atuais do El Niño. Esse tipo de peixe se tornou numeroso porque o novo padrão do fenômeno intensificou a ressurgência do Pacífico, que consiste na subida para a superfície da água fria e rica em nutrientes do fundo do mar. "Isso mudou a estrutura das populações de peixes e aumentou sobretudo o número de anchovas, que vivem em cardumes e podem ser pescadas com rede", explica Andrus.
Segundo o pesquisador, o aumento da oferta de peixes pode ter contribuído para a aceleração do desenvolvimento da população pré-inca, ocorrido justamente há 5 mil anos. "As condições que criaram o El Niño como conhecemos hoje podem ter também criado uma rica economia, que propiciou desenvolvimento cultural e demográfico", argumenta. A datação da origem do atual padrão do fenômeno em 5 mil anos confirma a conclusão de um estudo com base na análise de moluscos fossilizados publicado na Science em 1996.
Andrus acredita que sua pesquisa é mais uma evidência de que as mudanças climáticas acontecem naturalmente e estão presentes em toda a história da Terra. Os cientistas ainda não sabem o que causou a alteração do padrão do El Niño, mas o antropólogo explica que pode haver alguma relação com os solstícios, períodos do ano em que a Terra fica mais próxima do sol. "Espero que os dados levantados no estudo sejam úteis para o desenvolvimento de futuros modelos de previsão climática", completa.
Raquel Aguiar
Ciência Hoje on-line
20/03/02