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Os otólitos crescem em anéis concêntricos, alternadamente translúcidos e opacos, e incorporam indicativos do ambiente onde os animais viveram. Nas espécies de peixes estudadas os anéis se formam duas vezes por ano, o que permitiu avaliar a variação de temperatura entre verão e inverno.

 

 NOTÍCIAS :: METEOROLOGIA

Atual padrão do El Niño pode ter surgido há 5 mil anos
Fósseis indicam que fenômeno coincidiu com explosão cultural de população pré-inca

O fenômeno meteorológico El Niño, que afeta ciclicamente o clima da Terra, pode não ter existido sempre como conhecemos hoje. Um estudo publicado em 22 de fevereiro na revista Science propõe que entre 5 e 8 milênios atrás o aquecimento das águas do Pacífico era sazonal e previsível. A partir de então, o El Niño teria se tornado irregular e começado a durar mais que um ano. A datação do início do atual padrão do fenômeno há 5 mil anos pode ter implicações sobre o estudo da população pré-inca do Peru que apresentou na mesma época intensificação da economia e da complexidade cultural e amplo crescimento demográfico.

Otólito de 1 cm datado em cerca de 6010 anos. Essas estruturas presentes no ouvido interno dos peixes crescem em círculos concêntricos e permitem reconstituir características climáticas do ambiente onde se formaram

A pesquisa liderada pelo antropólogo Fred Andrus, da Universidade da Geórgia (EUA), usou fósseis de dois tipos de peixes abandonados por essa civilização para inferir a temperatura da água do Pacífico no período. Os cientistas analisaram a proporção de certo tipo de átomo de oxigênio -- o isótopo 18 -- na composição química de otólitos, pequenas pedras de cálcio localizadas no ouvido interno dos peixes que servem para orientação espacial. "Sabemos que a proporção de oxigênio-18 diminui à medida que a temperatura da água aumenta", explicou Andrus à CH on-line.

Foram observados peixes do tipo do bagre, comuns no período anterior a 5 mil anos, e também peixes do tipo das anchovas, numerosos após essa datação. Ao comparar os otólitos de peixes atuais com os de bagres, os cientistas descobriram que, na época em que estes animais viveram, a temperatura das águas do Pacífico peruano era mais estável e de 3 a 4°C mais alta que hoje em dia.

A análise dos otólitos de anchovas indicou as condições atuais do El Niño. Esse tipo de peixe se tornou numeroso porque o novo padrão do fenômeno intensificou a ressurgência do Pacífico, que consiste na subida para a superfície da água fria e rica em nutrientes do fundo do mar. "Isso mudou a estrutura das populações de peixes e aumentou sobretudo o número de anchovas, que vivem em cardumes e podem ser pescadas com rede", explica Andrus.

Segundo o pesquisador, o aumento da oferta de peixes pode ter contribuído para a aceleração do desenvolvimento da população pré-inca, ocorrido justamente há 5 mil anos. "As condições que criaram o El Niño como conhecemos hoje podem ter também criado uma rica economia, que propiciou desenvolvimento cultural e demográfico", argumenta. A datação da origem do atual padrão do fenômeno em 5 mil anos confirma a conclusão de um estudo com base na análise de moluscos fossilizados publicado na Science em 1996.

Andrus acredita que sua pesquisa é mais uma evidência de que as mudanças climáticas acontecem naturalmente e estão presentes em toda a história da Terra. Os cientistas ainda não sabem o que causou a alteração do padrão do El Niño, mas o antropólogo explica que pode haver alguma relação com os solstícios, períodos do ano em que a Terra fica mais próxima do sol. "Espero que os dados levantados no estudo sejam úteis para o desenvolvimento de futuros modelos de previsão climática", completa.

Raquel Aguiar
Ciência Hoje on-line
20/03/02

 

 
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