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Uma alergia sem sentido
A asma é uma doença crônica comum sobretudo entre as crianças em que há hipersensibilidade da traquéia e brônquios a estímulos que induzem a contrição da mucosa lisa das vias aéreas. A doença atinge anualmente cerca de 150 milhões de pessoas, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) e vem aumentando esse percentual graças ao crescimento da poluição nas grandes cidades. Estima-se que a asma atinja cerca de 7% a 15% da população brasileira e alcance 20% das crianças em determinadas regiões. Trata-se de uma reação alérgica dos pulmões que provoca inflamação das vias aéreas e produção exagerada de muco. Essa produção provoca o inchaço da parede dos brônquios, o que obstrui a passagem do ar. A reação alérgica ocorre por uma falha no sistema imunológico que reconhece como patógenas substâncias como poluentes atmosféricos, ácaros, pólen, produtos químicos inaláveis etc. Há ainda uma hiper-reatividade do brônquio asmático, ou seja, tendência de os músculos lisos que o envolvem de se contraírem exageradamente diante de estímulos -- emoções fortes, frio, exercícios físicos intensos, baixa umidade do ar ou fumaça -- que causam a liberação no sangue de substâncias que contraem a musculatura lisa.

Pacientes com asma usualmente apresentam hipresecreção de muco, altos níveis de anticopos IgE, inflamação pulmonar com acúmulo de eosinófilos e hiprereatividade brônquica. O muco é a secreção clara e viscosa oriunda da membrana das mucosas a que se juntam diversos sais inorgânicos, células descamadas e leucócitos. É conhecido popularmente como catarro. Anticorpos IgE -- ou imunoglobulina E -- são uma classe de anticorpos importantes na defesa antiparasitária. Estão envolvidos nos fenômenos alérgicos desencadeados em pessoas predispostas por ácaros, pólen, poeira etc. Eosinófilos são um tipo de glóbulo branco que provoca inflamação.

 

 NOTÍCIAS :: MEDICINA E SAÚDE

Alento contra a asma
Terapia que deu certo com camundongos evita reações que originam a doença

Uma terapia capaz de impedir as reações imunológicas responsáveis pela asma -- doença que mata 180 mil pessoas por ano -- foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo. Criado pela equipe do imunologista Momtchilo Russo, o tratamento consiste em tornar o organismo tolerante às substâncias alérgicas e bloqueou o surgimento da asma em camundongos com alergia na fase inicial. "A terapia leva o organismo a aceitar substâncias causadoras da asma antes que esta se desencadeie", diz Russo. "Uma similar para humanos poderia prevenir o surgimento da doença em pessoas predispostas."

Células alveolares ao microscópio em pulmão normal (esq.) e de asmático

O método de Russo, chamado indução de tolerância por via oral, inibe as reações dos linfócitos T associados às alergias causadoras da asma, os Th2. Essas células do sistema imunológico normalmente se ativam na presença de microrganismos causadores de doenças, mas em alguns indivíduos, elas também podem ser ativadas por proteínas presentes no ar ou nos alimentos, o que causa alergias. Com isso, liberam citocinas, substâncias que são responsáveis pelo quadro asmático.

Antes de testar a terapia, Russo induziu a asma em camundongos para avaliar suas reações. Ele injetou uma proteína do ovo (a ovoalbumina) misturada com hidróxido de alumínio, substância que direciona a reposta imunológica para um padrão do tipo Th2. Com isso, o sistema imunológico do animal passou a reagir com a ovoalbumina -- e ele ficou alérgico a essa proteína. O procedimento foi feito duas vezes com intervalos de sete dias. No 14º e no 21º dia, os camundongos inalaram ovoalbumina para desencadear a asma -- constatou-se que todos os animais haviam desenvolvido a doença.

O passo seguinte foi submeter os camundongos ao novo tratamento antes de repetir a indução à asma. Por cinco dias seguidos, 1% de ovoalbumina foi misturada à água dos animais. Seu sistema de defesa se acostumou a proteína e passou a reconhecê-la como um elemento normal da alimentação. Os camundongos não desenvolveram a asma quando o processo de indução foi repetido.

Russo repetiu o procedimento três vezes diferenciando a data do início do tratamento. Quando o camundongo recebeu a proteína no dia do primeiro procedimento que o tornou alérgico à substância, o êxito continuou total; quando ele a ingeriu no dia da segunda indução, reduziu-se o processo alérgico. Os camundongos ainda beberam a água com ovoalbumina logo após se tornarem alérgicos à proteína; nesse caso, houve piora da doença.

Se a proposta de desativar o processo alérgico for tão eficaz em seres humanos quanto em camundongos, será possível criar um tratamento oral que bloqueie a asma em filhos de asmáticos (crianças predispostas). "Não se sabe no entanto se o tratamento dará certo em humanos", pondera Russo. "Ainda não se conhecem os mecanismos naturais do organismo que condicionam o sistema imunológico a desativar o processo alérgico."

Sarita Coelho
Ciência Hoje on-line
14/11/01   

 

 
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