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 NOTÍCIAS :: MEDICINA E SAÚDE

Antibióticos modernos podem já estar 'obsoletos'
Estudo mostra que resistência bacteriana a drogas cresce em ritmo acelerado

Nos últimos anos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) vem demonstrando crescente preocupação com a venda e o uso indiscriminado de drogas nos países em desenvolvimento. Uma pesquisa desenvolvida na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a OMS desde 1996 indica que essa preocupação tem fundamento: a resistência bacteriana a antibióticos está aumentando em ritmo acelerado.

A enterobactéria Aeromonas hydrophila, comum no meio aquático, é atualmente considerada pela OMS como patógeno emergente

"Aqui na Fundação, monitoramos sobretudo cepas de Salmonella -- bactéria responsável pela maioria das infecções alimentares -- e Shigella -- causadora de graves diarréias infantis", diz Dalia Rodrigues, pesquisadora do Departamento de Bacteriologia da Fiocruz que participa do estudo. Seu laboratório recebe entre oito e nove mil cepas de Salmonella por ano. Essas bactérias estão presentes em amostras isoladas das mais diversas fontes: corpo humano, alimentos, ambiente, animais, matérias-primas e ração. "A análise desse material permite o monitoramento da bactéria ao longo de toda a cadeia alimentar", afirma Rodrigues.

Os resultados do estudo revelam que a adaptação das bactérias às drogas antimicrobianas se tornou um problema extremamente grave: cerca de 30% das cepas analisadas apresentam resistência a pelo menos uma droga. Entre 1997 e 1999, o número de bactérias resistentes a mais de uma classe de antibióticos mais que triplicou (passou de 0,24% para 0,73%). Esses medicamentos são divididos em classes de acordo com seu mecanismo de ação e os dados obtidos indicam que os microrganismos são capazes de driblar diversas formas de ataque. Além disso, a pesquisa mostra que mesmo os antibióticos mais modernos já não são eficazes no combate a diversas bactérias.

As indústrias farmacêuticas investem muitos recursos no desenvolvimento de novas drogas. "No entanto, em alguns anos, a produção de medicamentos pode não ser capaz de acompanhar o acelerado ritmo com que os microrganismos se adaptam aos remédios", alerta Rodrigues. Entre as causas dessa crescente resistência se destacam o uso indiscriminado de antibióticos na indústria de alimentos, a venda de remédios sem prescrição médica e a automedicação, além da interrupção do tratamento quando cessam os sintomas sem que os agentes causadores da doença tenham sido completamente eliminados. Tudo isso concorre para que as bactérias aprendam a 'conviver' com os antibióticos, que se tornam inofensivos.

Uma das conseqüências mais alarmantes geradas pela ineficiência das drogas antimicrobianas é um aumento significativo na ocorrência de infecções hospitalares, o que eleva o custo do tratamento de pacientes, devido a aspectos como um período de internação mais prolongado e uma maior taxa de morbidade e mortalidade. "Para mudar esse quadro, é necessário implementar medidas de controle na comercialização e uso desses fármacos e monitoramento contínuo dos diferentes microrganismos para minimizar suas conseqüências", afirma Rodrigues.

"É importante ressaltar que a Fundação Nacional da Saúde (Funasa/Ministério da Saúde) irá implementar a partir do próximo ano, com a participação da Fiocruz, um programa de monitoramento da resistência antimicrobiana de enterobactérias em todo o Brasil."

Fernanda Marques
especial para CH on-line
14/11/01

 

 
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