Alterações genéticas do embrião são a principal causa dos abortos espontâneos -- problema que afeta 12% das mulheres grávidas, sobretudo até o terceiro mês de gestação. Segundo pesquisa desenvolvida pelo médico Saul Sachetti, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 51% dos embriões abortados naturalmente apresentam falhas nos cromossomos -- estruturas do núcleo celular formadas por uma molécula de DNA e proteínas. Os resultados desse trabalho podem ajudar a orientar casais que querem ter filhos e já tiveram uma gravidez interrompida espontaneamente.
A criança em desenvolvimento se chama embrião até a 10ª semana de gestação; depois, passa a ser denominada feto. O cariótipo (conjunto de cromossomos) de 417 embriões e fetos abortados naturalmente foi estudado pela equipe de Sachetti. A análise do material era feita no máximo 48 horas após a coleta, período em que as células ainda se mantêm em atividade. O ciclo das células era interrompido na metáfase -- fase da divisão celular em que os cromossomos, em forma de X, estão bem condensados e ordenadamente dispostos no núcleo. Os cariótipos eram colocados sobre lâminas de vidro, tratados com corantes e observados ao microscópico.
Os cientistas verificaram se os cromossomos apresentavam algum tipo de anomalia. "Em casos de alterações genéticas, se a gravidez não fosse interrompida, nasceriam crianças com inúmeras deficiências", afirma Sachetti. "A maioria dos abortos espontâneos acontece quando fetos e, principalmente, embriões não têm condições de desenvolvimento adequado", diz o médico. "A seleção natural sempre aponta preferencialmente para o nascimento de crianças sadias."
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Cariótipo normal de indivíduo do sexo feminino com 46 cromossomos | | |
As alterações genéticas podem ser de dois tipos. Se o número de cromossomos é diferente do normal da espécie humana (46 cromossomos), a falha é denominada numérica. Quando as seqüências de DNA têm defeitos, a anomalia é chamada estrutural. Dos 292 cariótipos analisados com sucesso, 149 apresentavam alterações cromossômicas. Os cientistas encontraram apenas dois casos de anomalias estruturais, ou seja, a freqüência das falhas numéricas foi significativamente maior.
As alterações numéricas que acarretam abortos espontâneos ocorrem por acaso, ou seja, não estão associadas a distúrbios dos pais. Nesses casos, uma nova tentativa de gravidez poderia transcorrer sem complicações. No entanto, 50% das falhas estruturais estão relacionadas a problemas dos casais -- o que poderia levar à interrupção espontânea de outra gestação.
A análise dos cariótipos dos embriões e fetos abortados é importante para que se conheçam as causas do aborto. Se o conjunto de cromossomos for normal ou apresentar falhas estruturais, é preciso investigar se algum distúrbio dos pais foi responsável pela interrupção espontânea da gravidez. Corrigir esses eventuais problemas dos casais pode ajudar a garantir o sucesso de uma futura gestação.
Fernanda Marques
Ciência Hoje on-line
08/04/02