Há tempos não aumenta a lista dos livros mais revolucionários da história da ciência -- que inclui os Principia Mathematica, de Isaac Newton, ou A origem das espécies, de Charles Darwin. No entanto, a se julgar pelo que vem dizendo o matemático inglês Stephen Wolfram, um livro com lançamento previsto para 14 de maio está fadado a engrossá-la: é A new kind of science, escrito, adivinhe, pelo próprio Wolfram.
Além da autoconfiança, uma das características principais de Stephen Wolfram é o antiacademicismo: é um cientista nada ortodoxo. Após um inicio de carreira impressionante -- publicou o primeiro artigo aos 15 anos e terminou o doutorado no Caltech aos 20 --, largou a universidade rumo à iniciativa privada. Por um motivo nobre: ficou milionário depois de criar um software, o Mathematica, em 1988.
O Mathematica, vale dizer, é considerado por matemáticos e engenheiros um dos principais softwares de cálculo disponíveis. Com uma linguagem simbólica, e não apenas numérica, o programa realiza cálculos e elabora gráficos: "o Mathematica tornou tratáveis muitos problemas considerados quase impossíveis de resolver", avalia o matemático Roberto de Oliveira, doutorando da Universidade de Nova York. Segundo David Reiss, diretor de comunicação da Wolfram Research -- empresa criada para administrar o Mathematica --, cerca de dois milhões de pessoas usam o software em todo o mundo.
O trabalho na empresa afastou de vez Stephen Wolfram do ambiente acadêmico. Nos últimos dez anos não publicou nenhum artigo. Mas o silêncio se explica: o matemático se dedicou exclusivamente a um objetivo nada prosaico -- revolucionar a história da ciência com seu livro, A new kind of science.
O conceito central da revolução prometida por Wolfram é simples -- mais do que isso, é baseado na simplicidade. Segundo ele, desde os tempos de Galileu e Newton os cientistas tentam descrever a natureza adotando complicadas fórmulas matemáticas. Para Wolfram, esse método funciona bem até certo ponto (para prever a órbita de planetas, por exemplo). Mas, quanto mais complexo o fenômeno estudado, menor a chance de a abordagem matemática dar certo.
Para Wolfram, a chave para entender como a natureza funciona está em simples programas de computador. "O principal segredo da natureza é que, com simples regras básicas, ela consegue gerar a complexidade que observamos."
O que o levou a essa conclusão foi seu trabalho com programas conhecidos como autômatos celulares. Nos autômatos, é feita uma fileira com 'células', brancas e pretas, alternadamente. Daí em diante, são feitas sucessivas fileiras abaixo da inicial. Uma regra define a cor das novas 'células' a partir da cor dos vizinhos de cima.
O que surpreendeu Wolfram foi a arrumação extremamente complexa à qual podem chegar os autômatos, mesmo a partir de uma regra básica tão simples. Segundo ele, assim funciona a natureza -- ou seja, sabendo as regras básicas de funcionamento do universo, poderíamos reproduzir sua história com um simples programa de computador.
As conseqüências desse raciocínio, segundo Wolfram, são fantásticas. Ele cita algumas, mesmo sem entrar em detalhes (o livro vai estar cheio deles: são mais de mil páginas): "encontrei erros fundamentais em quase todos os campos da ciência". Em seu livro, pretende explicar, entre outros, por que o tempo só caminha em uma direção, por que a seleção natural não seria a chave para entender a evolução, como o mercado de ações funciona. Ele chega a prometer para um futuro próximo uma nova teoria fundamental da física.
A ambição de Stephen Wolfram não tem paralelos -- quando perguntado se é o Newton do século 21, responde: "quem sabe?" No mundo científico, Wolfram não é tão reconhecido quanto acha que merece. Resta saber se a partir do dia 14 assistiremos a uma revolução causada por um gênio que viu o que nenhum outro foi capaz ou a mais um caso de cientista que tentou dar um passo maior que a perna.
Tiago Lethbridge
Ciência Hoje on-line
10/05/02