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"Leio Rosa sentindo muito o trabalho da linguagem, a originalidade da combinação de palavras, as imagens que elas criam e o uso do diminutivo, que é fantástico", diz Nilce. Ela acredita não haver escritor que explore tão intensamente as potencialidades de nossa linguagem. "Sua criatividade é fascinante", sintetiza. Confira alguns de seus termos prediletos.

fraternura -- Ternura de irmãos. "Ternura sem tentativa -- fraternura" (Tutaméia)

tristelendas -- Que lembram lendas tristes. "Arroio-das Antas -- onde só restavam velhos, as mais sobejas secas velhinhas, tristeslendas." (Tutaméia)

trestriste -- Infeliz. Forma enfática de triste.

descriado -- Criado ao desamparo, desnutrido. "Tão magro, trestriste, descriado, aquele menino já devia ter prática de todos os sofrimentos." (Grande Sertão: Veredas)

funebrilho -- Brilhos fúnebres. "havia de sair bem assim, do jeito, cor-de-rosa, com verdes funebrilhos" (Primeiras Estórias -- falando do caixão que uma menina milagreira pedira para ser-lhe construído)

brisbrisa -- Brisa. // Duplicação do radical para efeito sonoro, poético.

ianso -- Sopro. // Onomatopéia do rumor do vento. Nei Leandro de Castro liga o vocábulo a Iansã, divindade africana dos ventos e das tormentas. A semelhança fonética com 'manso' produz uma conotação associativa. "Puxava uma brisbrisa. O ianso do vento revinha com o cheiro de alguma chuva perto." (Grande Sertão: Veredas)

dralar -- Estalar e subir a chama, expandir-se com aquele mágico, enrolado-desenrolado, turbilhonar vertical do fogo. "O fogo drala bonito." (Manuelzão e Miguilim)

florfeerir -- Parecer uma flor maravilhosa, mágica // De flor + feérico, 'mágico, maravilhoso' + ir. "Acarauaçu, apaiari amazônico, faz careta, a florfeerir: verde-folha-de-café, manchado de vermelho, riscado de preto com pavonino espelho na cauda." (Ave, Palavra)

 

 NOTÍCIAS :: LINGÜÍSTICA

Despetalando Rosa
Lingüista reúne e conceitua léxico estilístico do autor de Grande Sertão: Veredas

João Guimarães Rosa expressa no livro Tutaméia a dificuldade de apreender o sentido das palavras 'em todas as suas pétalas', em alusão a seus múltiplos significados. Nilce Sant'Anna Martins, que foi professora por 46 anos, iniciou há dez a difícil empresa de despetalar os sentidos dos termos peculiares ao autor mineiro. São oito mil verbetes reunidos em O léxico de Guimarães Rosa, atualmente em sua segunda impressão.

Embora longo, o trabalho da lingüista não foi enfadonho, porque realizado com gosto. Em iniciativa inédita que empreendeu sozinha e custeada por sua aposentadoria, a autora considerou toda a obra rosiana. O Léxico é parte de um plano mais ambicioso que Nilce não abandona: compor um dicionário estilístico que inclua também gramática, sintaxe e figuras de linguagem de Guimarães Rosa.

Os vocábulos foram selecionados pelo valor estilístico; 30% deles não são dicionarizados. Foram consultados 17 dicionários da língua portuguesa e 11 estrangeiros, a correspondência do autor com tradutores, 9 estudos sobre o autor e o Arquivo de J. G. Rosa, do Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Os termos que não figuram na bibliografia apresentam a indicação "explicação não encontrada", para poupar trabalho aos leitores. O Léxico é uma obra aberta a alterações e agregações -- "que serão muito bem recebidas", garante a autora.

Guimarães Rosa não só adota a fala local, mas recria a linguagem do sertão de forma depurada e eclética: reúne à língua corrente neologismos, arcaísmos, estrangeirismos, termos eruditos, populares e indígenas. Nilce preserva no Léxico a íntima dependência que Rosa enxergava entre som e sentido em referências ao efeito sonoro dos verbetes, observado seu contexto de emprego.

A criatividade torna a obra de Rosa misteriosa. Ele próprio não pretendia uma escrita transparente. "Minha literatura é para bois, não é para ser engolida de vez", dizia. O Léxico ajuda a quebrar barreiras de entendimento, mas Nilce adverte que a maior dificuldade reside no conteúdo filosófico e religioso da obra.

Segundo a autora, Grande Sertão: Veredas (1956) acentua o estilo que Rosa desenvolvia desde Sagarana e Corpo de Baile. A narrativa não linear inaugura o uso de frases curtas e elípticas. Em matéria chamada "Escritores que não conseguem ler Grande Sertão: Veredas", o poeta Ferreira Goulart afirma que o romance lhe parece 'uma história de cangaço contada para lingüistas'.

Guimarães Rosa, que aprendeu francês sozinho aos 7 anos de idade, definia sua literatura como resultado de 'trabalho, trabalho, trabalho'. Esperava a mesma postura do leitor, que é despertado de sua inércia mental pelo desafio de participar ativamente do texto e conferir sentido à linguagem experimental. O Léxico conserva o caráter de 'touro bravio' que Rosa esperava do leitor, pois não define os termos de forma dogmática, mas apresenta-os em suas possibilidades significativas -- ou 'em todas as suas pétalas', como prefere Rosa.

O Léxico de Guimarães Rosa
Nilce Sant'Anna Martins
Edusp, São Paulo, 2001
536 páginas

Raquel Aguiar
Ciência Hoje on-line
13/08/01

 

 
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