"Leio Rosa sentindo muito o trabalho da linguagem, a originalidade da combinação de palavras, as imagens que elas criam e o uso do diminutivo, que é fantástico", diz Nilce. Ela acredita não haver escritor que explore tão intensamente as potencialidades de nossa linguagem. "Sua criatividade é fascinante", sintetiza. Confira alguns de seus termos prediletos.
fraternura -- Ternura de irmãos. "Ternura sem tentativa -- fraternura" (Tutaméia)
tristelendas -- Que lembram lendas tristes. "Arroio-das Antas -- onde só restavam velhos, as mais sobejas secas velhinhas, tristeslendas." (Tutaméia)
trestriste -- Infeliz. Forma enfática de triste.
descriado -- Criado ao desamparo, desnutrido. "Tão magro, trestriste, descriado, aquele menino já devia ter prática de todos os sofrimentos." (Grande Sertão: Veredas)
funebrilho -- Brilhos fúnebres. "havia de sair bem assim, do jeito, cor-de-rosa, com verdes funebrilhos" (Primeiras Estórias -- falando do caixão que uma menina milagreira pedira para ser-lhe construído)
brisbrisa -- Brisa. // Duplicação do radical para efeito sonoro, poético.
ianso -- Sopro. // Onomatopéia do rumor do vento. Nei Leandro de Castro liga o vocábulo a Iansã, divindade africana dos ventos e das tormentas. A semelhança fonética com 'manso' produz uma conotação associativa. "Puxava uma brisbrisa. O ianso do vento revinha com o cheiro de alguma chuva perto." (Grande Sertão: Veredas)
dralar -- Estalar e subir a chama, expandir-se com aquele mágico, enrolado-desenrolado, turbilhonar vertical do fogo. "O fogo drala bonito." (Manuelzão e Miguilim)
florfeerir -- Parecer uma flor maravilhosa, mágica // De flor + feérico, 'mágico, maravilhoso' + ir. "Acarauaçu, apaiari amazônico, faz careta, a florfeerir: verde-folha-de-café, manchado de vermelho, riscado de preto com pavonino espelho na cauda." (Ave, Palavra)