Novos e importantes detalhes sobre o mecanismo de infecção da Yersinia pestis - bactéria causadora da peste bubônica - foram desvendados por cientistas da Universidade do Michigan, nos Estados Unidos. A pesquisa, coordenada por Jack Dixon foi publicada na revista Science de 24 de novembro de 2000.
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A bactéria Yersinia pestis causa a peste bubônica | | |
Para entender a descoberta, é preciso recapitular parte do funcionamento do sistema imunológico. Os macrófagos são os primeiros leucócitos a entrar em contato com um microorganismo que invade o corpo humano. Eles têm basicamente duas funções: destruí-lo e informar suas características aos linfócitos T, que mobilizam a defesa sangüínea para enfrentar o invasor.
A Yersinia pestis corta a comunicação dos macrófagos com os linfócitos T, mas até então não se sabia como. "Em certos casos, a ação dos macrófagos já seria suficiente para evitar o estabelecimento de uma doença", explica o imunologista José Hermênio Lima, da Universidade Federal de Santa Catarina. "Infelizmente, esse não é o caso da peste bubônica."
Os norte-americanos descobriram que a Yersinia utiliza uma proteína que produz chamada YopJ para cortar a comunicação dos macrófagos. Ao identificar uma bactéria, o macrófago envolve-a e digere-a (fagocitose). Durante a eliminação da Yersinia, a proteína YopJ entra no macrófago e inicia um processo enzimático que destrói duas outras proteínas do leucócito, conhecidas como MAPK e NFB.
A MAPK e a NFB são duas ubiqüitinas, proteínas presentes em todas as células que possuem núcleo (eucariontes). Até então, acreditava-se que as proteínas MAPK e NFB estivessem envolvidas apenas na prevenção da morte da célula e ativação celular, mas a pesquisa norte-americana mostra que elas também exercem funções na comunicação do macrófago. Portanto, quando a YopJ destrói a MAPK e a NFB, não só o macrófago não consegue mais se comunicar, como posteriormente morre.
Kim Orth, que também participou da pesquisa, acredita que as novas descobertas poderão ser aplicadas no tratamento do câncer e de doenças auto-imunes. O mecanismo de ação da YopJ serviria para controlar ou até cessar a multiplicação de células tumorais, e no caso de doenças auto-imunes, controlaria o número de leucócitos, desligando uma resposta imunológica excessiva. "É claro que ainda há muito para se caminhar e isso ainda está distante de se tornar realidade", alerta Hermênio. "Mas não há dúvidas que duas fantásticas descobertas foram realizadas nessa pesquisa: o mecanismo de como a peste se estabelece e mais pistas sobre os meios de comunicação do sistema imunológico."
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A peste de Ashod, tela de 1631 do pintor francês Nicolas Poussin | | |
Sinônimo de morte na Idade Média, a peste bubônica chegou a dizimar um quarto da população européia (cerca de 25 milhões de pessoas) no século 14. A peste é uma zoonose (doença de animais transmissível ao homem) comum entre roedores como ratos, esquilos e marmotas e é transmitida por suas pulgas, da espécie Xenopsylla cheopis.
Quando a doença ataca um número muito elevado de ratos urbanos (epizootia) como o rato-negro (Rattus rattus) e o rato de esgoto (Rattus norvegicus), a pulga se vê obrigada a buscar novas fontes de alimento como gatos, cães e humanos. Uma vez no tubo digestivo da pulga, a Yersinia pestis multiplica-se excessivamente e causa um bloqueio que faz com que a pulga fique esfomeada. Impedida de se alimentar, ela salta para inúmeros hospedeiros e após o esforço da picada, relaxa o tubo digestivo entupido e regurgita uma mescla de sangue e bactérias.
A doença leva de dois a cinco dias para se estabelecer. Os sintomas iniciais são inflamação dos gânglios linfáticos e leve tremedeira. A partir de então, seguem-se vômitos, dor de cabeça, vertigem, intolerância à luz, sonolência, dor nos membros e nas costas apatia, febre de 40oC e delírio. A diarréia surge nas formas mais graves da doença, que provoca a morte em 60% dos casos não tratados.
A peste é combatida com a administração de antibióticos como a tetraciclina e, sobretudo, a estreptomicina. Mas o melhor remédio continua ser a prevenção com a eliminação dos ratos urbanos e das pulgas. Também existem vacinas que devem ser aplicadas repetidas vezes para assegurar a imunidade.
Pablo Pires Ferreira
Ciência Hoje/RJ
05/01/01