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A infecção pela malária começa quando o mosquito do gênero Anopheles inocula no ser humano protozoários na sua forma infectante (esporozoítas). Eles circulam pelo sangue, fora das células, por cerca de meia hora. Chegam então às células do fígado (hepatócitos), onde se transformam em esquizontes e permanecem de uma a duas semanas. Nesse período são produzidos milhares de merozoítas, que retornam à corrente sangüínea e invadem as hemácias (células vermelhas do sangue). Após sucessivas multiplicações, são produzidos os gametócitos -- formas sexuadas do parasita sugadas pelo mosquito. No aparelho digestivo do inseto sofrem novas mudanças até se tornarem novamente esporozoítas que infectarão uma nova pessoa.



É possível criar vacinas que atinjam o parasita em outros estágios de seu ciclo. O casal de cientistas brasileiros Ruth e Vitor Nussenzweig, da Universidade de Nova York (EUA), estudam a forma infectante do protozoário (esporozoítas) há 30 anos. Eles trabalham em uma vacina contra esse estágio do ciclo. Uma vacina que ataque o Plasmodium na etapa em que ele se aloja no fígado também é possível, já que as células desse órgão têm HLA. "Outra alternativa é a chamada 'vacina altruísta', contra a forma do parasita que o mosquito ingere ao sugar o sangue de alguém infectado", diz Ribeiro. "Essa vacina imunizaria o mosquito, impedindo-o de transmitir a doença."

 

 NOTÍCIAS :: IMUNOLOGIA

Vacina contra malária testada no Brasil
Nos primeiros ensaios, macacos desenvolveram proteção parcial contra a doença

Uma vacina contra a malária encontra-se em teste em macacos no Brasil. A vacina contra o protozoário Plasmodium falciparum (responsável por 99% das mortes por malária) mostrou-se capaz de gerar resposta imunológica em macacos-de-cheiro (Saimiri sciureus) nos laboratórios do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), no Rio de Janeiro, e do Centro Nacional de Primatas, em Belém do Pará.

Células vermelhas do sangue (hemácias - círculos marrons) infectadas pelo Plasmodium falciparum (foto: Laboratório de Malária / Fiocruz)

Um dos principais empecilhos para o desenvolvimento da vacina é o complexo ciclo de vida do parasita. Durante esse ciclo, ele muda sua estrutura e expõe diferentes proteínas em sua superfície. Algumas delas são específicas de um estágio; outras aparecem durante todo o ciclo do parasita. O sonho dos cientistas é fabricar uma vacina que atinja todos os estágios do ciclo de vida do Plasmodium. Para isso, é possível que eles tenham que trabalhar com proteínas presentes em cada um dos estágios de vida do parasita.

Não é possível para o sistema imunológico atingir o parasita dentro das hemácias, células vermelhas do sangue onde ele se multiplica (essa etapa, a mais longa de seu ciclo de vida, é aquela em que surgem os principais sintomas da doença). Isso ocorre porque essas células, que são anucleadas, não têm a molécula que desencadeia a ação das células de defesa do organismo. Essa molécula se chama antígeno leucocitário humano (HLA) e está presente em todas as células nucleadas do corpo. "O HLA é a identidade imunológica de cada pessoa. É um sistema de cognição voltado para seu próprio organismo", explica Cláudio Ribeiro, chefe do Departamento de Imunologia da Fiocruz, envolvido nos estudos da eficácia e dos mecanismos de ação da vacina. "O HLA faz com que o invasor seja reconhecido como estranho pelo organismo."

Ciclo de vida do plasmódio dentro de hospedeiros mamíferos


A vacina em estudo na Fiocruz ataca o Plasmodium quando ele está na corrente sangüínea, mas fora das hemácias. Ela é composta por duas proteínas encontradas na superfície do Plasmodium identificadas por cientistas da França e da Dinamarca: a MSP3 e a GLURP, ambas presentes no parasita na fase do ciclo em que ele se encontra no sangue. O sistema imunológico humano reconhece essas proteínas, estranhas ao organismo, e desencadeia a ação das células de defesa e a produção de anticorpos, que destroem o protozoário.

A vacina está em testes com macacos desde 1997. Nos primeiros testes, alguns dos primatas previamente imunizados desenvolveram proteção ao menos parcial quando expostos ao Plasmodium. A etapa seguinte (teste em humanos) já está sendo realizada em voluntários na Suíça, diz Ribeiro.

Essa possível vacina vem se somar a outras iniciativas de combate à malária: além de cientistas brasileiros pesquisarem há décadas uma vacina que atua em outro estágio do ciclo de vida do protozoário, uma outra proteína potencialmente vacinal foi descoberta na Fiocruz em 1995 e também será testada nos macacos-de-cheiro.

Adriana Melo
Ciência Hoje on-line
09/12/02

 

 
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