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Relatos dos primeiros europeus no Brasil
Livro traz impressões de exploradores sobre fauna, flora e população amazônica
Assim como Marco Polo, que descreveu em seus diários de viagem animais curiosos que encontrou no Oriente, os primeiros exploradores europeus que chegaram à floresta amazônica deixaram registradas suas impressões sobre a nova terra, destacando o exotismo da fauna. Alguns desses textos, escritos entre 1500 e 1777, foram reunidos por biólogos do Rio de Janeiro e do Pará no livro O Novo Éden. A publicação, recém-lançada pelo Museu Paraense Emílio Goeldi, traz os relatos dos viajantes sobre cerca de 1300 animais, além de considerações acerca da flora, população nativa e lendas da região.
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O tamanduá, "um dos animais mais galantes da América", segundo relato de 1757 do padre João Daniel | | |
A primeira menção escrita a um animal brasileiro, por exemplo, foi feita pelo navegador Pedro Martyr, tripulante da expedição do espanhol Vicente Yánez Pinzón, que chegou ao norte da costa brasileira em janeiro de 1500. Pinzón capturou uma fêmea de mucura - espécie de gambá que, como os cangurus, carrega os filhotes em uma bolsa - que foi descrita por Martyr como "um animal monstruoso, com mãos humanas e pés como de monas". Segundo Nelson Papavero, professor de biologia da Universidade Santa Úrsula (RJ) e um dos organizadores do livro, o animal foi levado para a Europa e causou espanto. "Para quem só conhecia os bichos citados na Bíblia, isso mexeu com a concepção de fauna."
Os 27 textos do livro são apresentados em ordem cronológica e trazem enfoques diferentes em função de sua data. "Os primeiros relatos são mais descritivos, já que foram feitos por exploradores que, muitas vezes, chegaram sem querer à costa brasileira", explica Papavero. A partir do século 18, quando eles ocupam a área e travam um contato maior com os indígenas, o registro passa a ser mais detalhado.
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O jacaré foi descrito pelo padre João Daniel como "o maior lagarto do mundo, capaz de investir e intimidar o mais robusto gigante" | | |
Um dos relatos, escrito em 1757 pelo padre João Daniel, é considerado um verdadeiro tratado científico pelos organizadores do livro. Além de propor idéias para a ocupação da região, ele cita 226 espécies de animais. O jacaré, por exemplo, é descrito como "o maior lagarto do mundo, capaz de investir e intimidar o mais robusto gigante". O único animal a aparecer em todos os textos é o carapanã (mosquito), embora comentários sobre tartarugas e cobras também sejam freqüentes. "A partir da leitura, é possível perceber que a quantidade de espécies era na época muito maior que nos dias de hoje", afirma Papavero, acrescentando que a destruição de aldeias indígenas também fica clara a partir do levantamento das tribos feito por alguns exploradores.
Helena Aragão Ciência Hoje/RJ 27/09/00 |