O Museu de Astronomia e Ciências Afins do Rio de Janeiro (Mast) recebeu no dia 18 um presente do bisneto do astrônomo belga Luis Cruls (1848-1908): seus arquivos, guardados há mais de um século pela família, foram entregues ao museu e estarão à disposição do público assim que os papéis forem catalogados. Os arquivos podem tornar mais claros aspectos da vida e das pesquisas do cientista que, além de astrônomo, foi coordenador da expedição enviada ao Planalto Central em 1902 para analisar o melhor local para a construção da futura capital do país, Brasília.
Luis Cruls nasceu em Diest, Bélgica, em 1848. Após se formar em engenharia, resolveu visitar o Brasil, fascinado pelo que ouvia de colegas brasileiros sobre o país. Em 1874, na viagem a bordo do vapor Orénoque, conheceu Joaquim Nabuco, que o conduziu à sociedade brasileira da época. As ligações que manteve no Brasil o levaram a conhecer o imperador Dom Pedro II.
Em 1882, Cruls, que trabalhava no Observatório Imperial (atual Observatório Nacional), registrou a passagem de um cometa não-identificado. Apesar de o cometa ter sido observado antes -- por navegantes italianos e neo-zelandeses --, Cruls foi o primeiro a registrá-lo, e batizou o corpo celeste com seu nome.
Não foi só na astronomia que Cruls teve papel importante: em 1892, ele foi designado pelo governo republicano para chefiar a comissão que exploraria o Planalto Central para definir o melhor local para a construção de uma nova capital para o país. 69 anos depois, Brasília foi inaugurada no mesmo local escolhido pela missão do belga.
 |
|
Grupo que foi ao Planalto Central definir a localização da futura capital. Cruls, de bengala, é o terceiro sentado da esquerda para a direita | | |
Além do relatório escrito sobre a missão de Brasília, os arquivos doados ao Museu de Astronomia pela família de Luis Cruls contêm documentos que dão idéia da importância que o cientista teve na história da ciência brasileira : são cartas trocadas com Dom Pedro II e Benjamim Constant, entre outros, fotos, livros e documentos. A exposição dos arquivos ainda deve demorar algum tempo: "São três caixas cheias de papéis, com inúmeros textos e cartas escritos em francês", explica a coordenadora do arquivo do museu, Celina Melo e Silva. "Os arquivos só estarão disponíveis quando o material for traduzido e organizado."
Tiago Lethbridge
Ciência Hoje/RJ
26/06/01