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Tem levantado polêmica nos Estados Unidos a acusação de que o filme de Ron Howard teria ignorado fatos da vida de John Nash -- citados no livro -- que feririam as suscetibilidades do público e, especialmente, da Academia. "Homossexual","anti-semita","mau pai", são alguns dos adjetivos que circulam na mídia.
Antes de se casar com Alicia, Nash teve um filho não-assumido com a enfermeira Eleanor Stier. O filho, John Stier, não recebeu quase nenhuma ajuda de Nash, que só o procurou doze anos depois. Seguiram-se mais 20 anos de separação, ate que em 93 John Stier fez contato e os dois se reconciliaram.
A acusação de anti-semitismo não passa de patrulhamento do "politicamente correto." As afirmações que a fundamentam foram feitas enquanto Nash estava no auge da esquizofrenia.
Há ainda a polêmica em torno da homossexualidade de Nash: segundo Sylvia Nasar, ele se "envolveu emocionalmente" com vários homens por volta dos 20 anos (até Eleanor, nenhuma mulher é citada). O matemático foi preso em 1954, acusado de atentado ao pudor em um banheiro masculino. Em nenhum momento, no entanto, há uma afirmação cabal, que justifique a gritaria dos críticos.  


A teoria dos jogos permite analisar matematicamente situações competitivas que envolvam um número limitado de agentes. Em jogos como o pôquer, os jogadores têm que pensar adiante -- desenvolver uma estratégia baseada nos lances do(s) outro(s) jogador(es). Essa interação também caracteriza diversas situações econômicas, e a teoria dos jogos provou ser uma essencial ferramenta de análise.
John Nash desenvolveu a noção de jogos não-cooperativos (oposta à de jogos cooperativos, de John von Newmann e Oskar Morgenstern). Em jogos não-cooperativos os jogadores não podem fazer acordos. Segundo Nash, nesses jogos há sempre um ponto de equilíbrio em que as expectativas dos jogadores são realizadas.

 

 NOTÍCIAS :: HISTÓRIA DA CIÊNCIA E EPISTEMOLOGIA

Uma mente brilhante em dose dupla
Lançada biografia do matemático John Nash, que inspirou filme vencedor do Oscar

Domingo, 24 de março, o filme Uma mente brilhante, que conta a história do matemático americano John Forbes Nash Jr., prêmio Nobel de economia de 1994, ganhou o Oscar em quatro categorias, inclusive melhor filme e direção. Biografias de ganhadores do Nobel no cinema não são novidade: em 1996. Infinity, de Matthew Broderick, encenou a vida do americano Richard Feynman, laureado com o prêmio de física de 1965. A história do casal franco-polonês Pierre e Marie Curie -- que dividiu o Nobel de física em 1903 (Marie levou sozinha o prêmio de química em 1911) --, também foi levada às telas, em Madame Curie (Mervyn Leroy, 1943) e Pierre & Marie Curie (Georges Franju, 1953).

A estréia no Brasil do filme estrelado por Russel Crowe trouxe a reboque o lançamento do livro homônimo que o inspirou, a biografia de Nash escrita pela jornalista Sylvia Nasar. No livro, lê-se uma história um pouco diferente da descrita no cinema: aspectos da vida do matemático que poderiam não ser vistos com bons olhos pelo público foram omitidos.

John Nash nasceu em 1928, filho de um engenheiro e uma professora. Desde cedo, demonstrou enorme talento para a matemática -- sua primeira façanha foi demonstrar aos 14 anos um dos teoremas de Fermat. Estudou na Universidade de Princeton, que já foi chamada o "centro do Universo" da matemática (foi reduto de gênios como Einstein, Gödel e Oppenheimer). Lá, aos 21 anos, desenvolveu o teorema do equilíbrio em jogos não-cooperativos (o chamado Equilíbrio de Nash), que lhe valeria o Nobel 44 anos depois.

A ascensão meteórica foi interrompida pela esquizofrenia: em 1959, ano de sua primeira internação, dizia ter sido escolhido por alienígenas para salvar a Terra -- eles se comunicavam por meio de mensagens no segundo editorial do New York Times, que só ele podia decifrar. Nos anos seguintes, mandava cartas para líderes políticos no intuito de formar um governo mundial e se julgava perseguido político -- tentou em vão renunciar à nacionalidade americana. Após diversos tipos de tratamento, que incluíram eletrochoques, Nash passou mais de 20 anos vagando pelo Instituto de Estudos Avançados de Princeton e escrevendo mensagens incompreensíveis na parede.

Nos anos 90, ocorreu uma inesperada remissão da doença. O físico Freeman Dyson, também de Princeton, relata no livro o susto que levou ao ver Nash responder ao seu cumprimento: "Foi lindo. O que eu achei maravilhoso foi esse lento despertar." Poucos anos depois do episódio, ele receberia o Nobel, que dividiu com Reinhard Selten e John Harsanyi.

O relato dos bastidores da escolha de Nash pela Academia Sueca é um dos pontos altos do livro. Segundo a autora, nunca um Nobel foi tão disputado: houve discussões acaloradas entre os que defendiam Nash a aqueles que tinham medo de um possível vexame na cerimônia de entrega. O temor mostrou-se infundado. Nos tradicionais dez minutos de conversa do rei da Suécia com cada laureado, o matemático e o monarca trataram de prosaicos carros-esporte.

Uma mente brilhante
Sylvia Nassar (trad.: Sergio Moraes Rego)
Rio de Janeiro, 2002, Editora Record
585 páginas; R$ 43

Tiago Lethbridge
Ciência Hoje on-line
22/03/02

 

 
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