, inaugurava-se a nossa linha telegráfica, que ia da Quinta Imperial ao Quartel do Campo, no Rio, com 3 km de linha subterrânea. Para colocar os fios, ele teve a ajuda de prisioneiros da Casa da Detenção. A motivação inicial do Ministério da Justiça para determinar a instalação dessa linha parece ter sido o combate ao tráfico de escravos.
Após a primeira linha, o telégrafo começou a se estender pelo país, inicialmente para o Sul, atendendo às necessidades militares da Guerra do Paraguai. Uma estação de manutenção e uma pequena fábrica para construir equipamentos foram criadas por Capanema em 1865 no Rio. Após esse período, as linhas telegráficas passaram a crescer rapidamente em direção ao norte e interior do país, numa epopéia que duraria até o primeiro quartel do século 20, em particular com os trabalhos de Rondon e sua equipe.
A ligação telegráfica entre as cidades da costa brasileira e do Brasil com a Europa foi realizada, em 1873 e 1874 respectivamente, por meio de cabos submarinos de companhias inglesas. Curiosamente, o grande físico inglês William Thomson (Lord Kelvin) e seu colega Fleeming Jenkin eram os engenheiros da companhia que colocava os cabos e supervisionaram a instalação do cabo entre Recife e Belém. Diversas disputas ocorridas entre as companhias inglesas e a diretoria dos telégrafos ao longo do século 19 anteciparam muito da disputa entre o estatal e o privado existente hoje.
Uma interessante controvérsia técnica, política e econômica envolvendo Thomson e Jenkin com Capanema sobre a colocação do cabo submarino em São Luís (MA) ocorreu nos anos 1870. A Western and Brazilian Telegraph Company havia solicitado ao governo a dispensa de construção de uma ligação do cabo submarino para São Luís, na linha Recife-Belém. Capanema recusou a proposta britânica. Na disputa que se seguiu, Thomson, Jenkin, outros engenheiros da companhia inglesa e uma comissão brasileira, por um lado, e Capanema e outros engenheiros brasileiros, pelo outro, produziram relatórios em oposição. A pendenga estendeu-se de 1873 a 1876, quando uma expedição da marinha brasileira foi enviada ao local para fazer medidas e concluiu pela possibilidade técnica de se construir a ligação, o que a companhia inglesa teve de realizar.
Outro fato interesante foi a invenção, por Capanema, de um novo isolador para as linhas telegráficas terrestres. Devido às condições ambientais nos trópicos (calor e alta umidade) a deterioração rápida dos isoladores era um problema grave para as linhas. Isso levou Capanema a inventar um novo tipo de isolador, todo feito de vidro, porcelana, ebonite etc., mas que não usava peças metálicas. Essa invenção recebeu a patente número 4171, em 1873, no Reino Unido e foi divulgada nas principais revistas européias da área. Esse isolador foi usado no Brasil e temos a informação (que precisa ser confirmada) de que teria sido usado também na grande linha telegráfica da Índia. Se assim for, este será um exemplo interessante de transferência tecnológica entre países da periferia, em um domínio tecnológico em que havia ampla hegemonia do Império Britânico.
Ildeu de Castro Moreira e Mauro Costa Silva
Instituto de Física e Área Interdisciplinar
de História da Ciência - COPPE/UFRJ
13/05/02