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Cinco artigos que, em um ano, mudaram a física
Livro reproduz trabalhos em que Einstein criou bases para relatividade e teoria quântica
Um dos mais antigos conflitos da humanidade é o travado entre ciência e religião -- caso emblemático é o de Giordano Bruno, que queimou na fogueira da Inquisição por defender que o universo era infinito. Com o passar dos séculos, no entanto, concessões foram feitas dos dois lados: descobertas da ciência foram aceitas pelas religiões, e alguns feitos científicos, de tão surpreendentes e revolucionários, foram chamados pelos próprios cientistas de milagres.
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97 anos depois, o leitor brasileiro pode conferir em um só volume os históricos artigos que Einstein escreveu em 1905 (foto: reprodução) | | |
Dois anos são, pela falta de adjetivos que os descrevam melhor, considerados milagrosos: o primeiro é o de 1666, em que Isaac Newton, aos 24 anos, fugiu da epidemia de peste que assolava os centros urbanos para passar uma temporada em sua casa no interior da Inglaterra. Lá, deu o pontapé inicial para suas mais importantes teorias: o cálculo, a teoria da gravitação e a teoria das cores. Newton fez 1666 passar para a história como o annus mirabilis.
O outro ano é o de 1905. Em cinco artigos, o jovem Albert Einstein -- que havia feito sua graduação em física e matemática com desempenho apenas mediano -- criou as bases para as duas maiores revoluções da física do século 20: a teoria da relatividade e a mecânica quântica (que Einstein, curiosamente, nunca aceitou muito bem). Os artigos são reproduzidos no livro O ano miraculoso de Einstein, recém-lançado no Brasil.
Era um ano tranqüilo para Einstein. Depois de formado, havia ficado alguns anos à cata de emprego -- seu pai, Hermann, chegou a enviar cartas para professores, em que pleiteava um cargo para o filho. Em 1902, seu amigo Marcel Grossman indicou Einstein para uma vaga naquele que se tornaria o escritório de patentes mais citado do mundo, o de Berna, capital da Suíça.
Com emprego garantido, Einstein pôde ocupar a cabeça com outros assuntos. E os resultados vieram rapidamente: em sua tese de doutorado -- o primeiro dos artigos do livro --, Einstein criou um novo método para determinar dimensões moleculares; no segundo, deduziu as leis que governam o movimento browniano; nos dois artigos seguintes, deu o passo inicial para a teoria que faria do alemão o maior físico desde Newton: a relatividade. No primeiro deles, prova que o tempo é relativo; no segundo, relaciona massa e energia (cuja conseqüência é a célebre E=mc2). No último dos artigos -- o único que, à época, julgou revolucionário, e pelo qual ganharia o Nobel 16 anos depois --, demonstra que a luz é formada por corpúsculos, os quanta, que depois seriam conhecidos como fótons.
Tudo em apenas um ano.
97 anos depois, o Brasil tem acesso a um livro que documenta os 'milagres' que marcaram o quinto ano do século 20. Para o leigo, claro, os artigos de Einstein soam como a leitura de Homero no original (sabe-se que o gênio está lá, mas é impossível entender). A ótima introdução de John Stachel e o prefácio escrito por Roger Penrose, no entanto, ajudam o leitor comum a compreender a importância das descobertas desse alemão de 26 anos, que fizeram dele um dos homens do século.
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O ano miraculoso de Einstein - cinco artigos que mudaram a face da física John Stachel (org.) - trad.: Alexandre Carlos Tort Rio de Janeiro, 2001, Editora UFRJ 222 páginas; R$ 30,00 |
Tiago Lethbridge Ciência Hoje on-line 20/05/02 |