O leitor brasileiro ganhou duas oportunidades de conferir o pensamento de um dos personagens mais interessantes da história da ciência: Isaac Newton (1642-1727). Newton - textos, antecedentes, comentários apresenta uma seleção de escritos originais do britânico escolhidos e introduzidos por pesquisadores contemporâneos. Foi relançada também uma tradução para a mais importante obra científica de Newton: os herméticos Princípios matemáticos da filosofia natural.
Newton foi responsável por uma série de feitos que, tomados separadamente, bastariam para lhe conferir espaço de destaque na história da ciência. Na física, ele estabeleceu formalmente a mecânica, definiu o conceito de massa, descobriu o princípio da gravitação universal e revolucionou a compreensão da natureza das cores e da luz do Sol; na matemática, desenvolveu os cálculos diferencial e integral, que estão na base de boa parte das ciências exatas praticadas desde então.
Alguns historiadores da ciência apontam Newton como o primeiro cientista da idade da razão, que veio coroar um período de rápidas mudanças no conhecimento da natureza conhecido como Revolução Científica (marcado pela atuação de pensadores como Copérnico, Kepler, Galileu e Descartes, esse período, iniciado no fim do século 16, levaria à emergência da ciência moderna). Para o economista inglês John Maynard Keynes, no entanto, essa visão é equivocada: Newton deveria ser visto como o último expoente de uma época em que o saber científico incorporava elementos mais tarde afastados por serem considerados místicos. O britânico não seria assim o "primeiro dos modernos", mas o "último dos magos".
De fato, apenas parte da atividade criativa de Newton foi dedicada à ciência. O britânico investiu muito de seu tempo em estudos alquímicos e teológicos -- procurava interpretar as escrituras sagradas, estabelecer uma cronologia da Bíblia e decifrar profecias. Essa diversidade temática de sua obra, desconhecida por muitos, está refletida no livro Newton - textos, antecedentes, comentários. Em seções temáticas, os grandes campos atravessados pela obra de Newton -- inclusive teologia e alquimia -- são introduzidos pelos organizadores, que escolhem em seguida textos representativos do britânico em cada área.
O mercado brasileiro vê ainda em 2002 o relançamento de uma tradução de 1990 para o primeiro livro dos Philosophiae Naturalis Principia Mathematica (1687) -- uma das mais importantes obras da história da ciência. O volume estabelece os fundamentos da mecânica racional lançada pelo britânico e expõe as leis gerais do movimento de corpos sujeitos à ação de forças centrais. Não foram lançados ainda os outros dois livros que compõem os Principia: o segundo discorre sobre o movimento dos corpos em meios resistentes, e o terceiro descreve o sistema de mundo de Newton, o movimento dos astros e o princípio da gravitação universal.
O leitor deve ter prudência, porém, ao abordar o livro: trata-se de uma obra difícil, inacessível até para muitos iniciados. Na introdução a Newton - textos, antecedentes, comentários, Cohen e Westfall advertem: "Até a parte mais acessível dos Principia, a elaboração do sistema do mundo, foi redigida por Newton em um estilo deliberadamente difícil, para que não pudesse ser acompanhada por nenhum leitor, à exceção dos mais resolutos".