Nos tempos atuais, em que proliferam ONGs ambientalistas e campanhas pela preservação de espécies, a preocupação com a defesa dos recursos naturais está cristalizada na sociedade brasileira. Intelectuais comprometidos com essa causa, no entanto, não são privilégio dos séculos 20 e 21. Antes mesmo de se tornar independente de Portugal, o Brasil ensaiava críticas às práticas econômicas predatórias, como queimar florestas para tornar o solo apto ao cultivo ou derrubar árvores das margens de rios para alimentar as fornalhas dos engenhos.
Isso é o que indica o livro Um sopro de destruição, do historiador José Augusto Pádua, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Há cerca de 20 anos, quando estudava a evolução do pensamento político brasileiro, o professor encontrou na obra de José Bonifácio passagens em que o 'patriarca da independência' se mostrava preocupado com a destruição da natureza no Brasil. Pádua resolveu, então, procurar outras obras anteriores ao século 20 que tratassem de questões ambientais. Um sopro de destruição é o resultado dessa pesquisa, que analisou 150 textos produzidos por mais de 50 autores entre 1786 e 1888.
Nos séculos 18 e 19, alguns intelectuais brasileiros formados na Universidade de Coimbra (Portugal) retornaram ao Brasil e se indignaram com o cenário encontrado: as riquezas naturais do país se esgotavam devido a práticas rudimentares na agricultura, pecuária e extrativismo. Esses intelectuais acreditavam que a exploração dos recursos naturais só poderia garantir o progresso do Brasil se estivesse cientificamente fundamentada. Um sopro de destruição mostra que a crítica ambiental nos séculos 18 e 19 tinha caráter essencialmente político-econômico.
Os intelectuais afirmavam que era preciso rejeitar técnicas ultrapassadas, como as queimadas e o extrativismo predatório, para impedir que o solo brasileiro se tornasse improdutivo. Nesse ponto, porém, Pádua distingue dois perfis distintos entre os críticos ambientais dos séculos 18 e 19: alguns, como Joaquim Nabuco, acreditavam que o fim da escravidão era condição básica para a modernização econômica; outros, como Manoel Porto-Alegre, julgavam ser possível modernizar a economia sem abandonar o trabalho servil.
Abolicionistas ou não, os críticos ambientais dos séculos 18 e 19 acreditavam que o avanço tecnológico era uma arma poderosa contra a destruição da natureza. No entanto, observamos hoje que a tecnologia, ao invés de ser a resposta para os problemas ambientais, pode agravá-los ainda mais. Como Pádua afirma na conclusão do livro, combater as causas da destruição do meio ambiente "continua a ser uma tarefa teórica e política de primeira grandeza".
Um sopro de destruição é resultado de uma pesquisa documental extremamente rica. O livro aponta episódios da história da crítica ambiental brasileira que haviam sido esquecidos e que podem ajudar a identificar e transformar a estrutura social que legitima a degradação da natureza.