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 NOTÍCIAS :: HISTÓRIA DA CIÊNCIA E EPISTEMOLOGIA

Alfred Wallace na Amazônia: um naufrágio memorável 
Há 150 anos afundou o navio que levava o naturalista inglês - que escapou com vida

Cento e cinqüenta anos atrás, em agosto de 1852, deixava o Brasil o grande naturalista inglês Alfred Russel Wallace (1823-1913), famoso por ter formulado em 1858, independentemente e ao mesmo tempo que Darwin, a hipótese da seleção natural para a origem das espécies. Wallace realizara, durante quatro anos, intensas atividades de coleta que o levaram a percorrer enormes distâncias e atingir o Alto Rio Negro. Ele viera para o Brasil com seu amigo e também naturalista Henry Bates, que aqui ficaria até 1859.

Sobre essa viagem à Amazônia, que teve grande importância como ponto de partida para seus estudos biogeográficos e para colocá-lo no caminho da formulação da hipótese da seleção natural, Wallace deixaria o clássico A narrative of travels on the Amazon and Rio Negro, with an account of the native tribes, and observations on the climate, geology, and natural history of the Amazon Valley (Londres, 1853), do qual existem duas traduções publicadas no Brasil, em 1939 e 1979. Wallace produziu também um belíssimo mapa sobre o Rio Negro.

Em seu retorno à Inglaterra, o navio em que viajava incendiou-se e afundou no dia 6 de agosto de 1852. Wallace e a tripulação do navio conseguiram escapar a duras penas, até serem recolhidos por um outro barco, nove dias depois. Um interessante relato do naufrágio, ocasionado pelo incêndio da carga de óleo de copaíba, pode ser encontrado no capítulo 13 de seu livro de viagem.

Após a ida à Amazônia, Wallace iria para o Arquipélago Malaio (atual Indonésia), onde permaneceu entre 1854 e 1862 realizando um extraordinário trabalho de observações e de coleta. Ele recolheu cerca de 124.000 espécimes, na sua grande maioria insetos, dos quais milhares eram desconhecidos pela ciência. Publicou ao longo de sua vida centenas de artigos científicos e dezenas de livros, tendo tido intensa atuação política de cores socialistas até sua morte.

Recentemente foi publicado pela Edusp um belíssimo livro contendo as ilustrações feitas por Wallace de peixes do Rio Negro. O livro foi organizado por Mônica de Toledo-Piza Ragazzo. Esses desenhos foram por ele salvos do naufrágio, no qual perdeu quase todo o material coletado na região amazônica. Existem alguns artigos científicos e livros recentes que tocam na questão da presença de Wallace na Amazônia, sobre a importância dos trabalhos ali realizados por ele e sobre a influência que a natureza tropical da região e os conhecimentos dos nativos exerceram sobre suas idéias acerca da biogeografia e da seleção natural.

No entanto, não ocorreu ainda um encontro de especialistas brasileiros e estrangeiros que discutisse e avaliasse em conjunto as atividades de Wallace na Amazônia. Por isso, está sendo organizado para outubro, na Fiocruz, um workshop destinado a analisar a importância da obra de Wallace e suas relações com o Brasil.

Ildeu de Castro Moreira
Coordenação de Programas de Pós-graduação em Engenharia
(Área Interdisciplinar de História das Ciências e Epistemologia)
e Instituto de Física, Universidade Federal do Rio de Janeiro
e Luisa Massarani
Museu da Vida / Fiocruz
05/08/02

 

 
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