. Mesmo assim, os astrônomos aferiram dados em diversas estações ao longo do meridiano e, ao fim da expedição, determinaram a latitude dos pontos mais extremos das rotas por meio da observação de astros.
No entanto, a partir da chegada de Méchain a Barcelona (o ponto mais ao sul da rota), o astrônomo deixou de enviar alguns dados ao parceiro -- até então um hábito entre eles. Em pânico, Méchain percebeu que tinha cometido um erro durante as correções de refração na cidade catalã: uma diferença na latitude de 3,4 segundos -- inadmissível para a comissão que ratificaria os cálculos em Paris.
Alder encontrou no Observatório de Paris as cartas dos astrônomos que revelavam o erro encoberto por Méchain. Em A medida de todas as coisas o historiador enriqueceu seu longo e detalhado texto com trechos de algumas delas, que revelam a falha: uma diferença de apenas 0,2 milímetro no metro conhecido, ou o equivalente à espessura de duas páginas de um livro.
Convencido de que não poderia admitir o erro, Méchain tentou falsificar os próprios relatórios. Seus cálculos foram aprovados e a nova unidade oficializada na França. Apesar disso, a rejeição foi muito grande. Como um novo calendário e um novo padrão para as horas, o metro foi mais uma tentativa de se criar medidas universais em uma época turbulenta. Por isso, com o fim da revolução, os antigos sistemas voltaram a vigorar.
Em 1804, a perturbação de Méchain o levou às Ilhas Baleares, no Mediterrâneo, a fim de instituir outra referência mais ao sul do meridiano que substituísse o marco de Barcelona e, assim, desfazer o erro. Mas antes de concluir a expedição, morreu de malária. Delambre, então, reuniu todos os dados de Méchain, reconstituiu os diários do parceiro e refinou os métodos geodésicos para publicar As bases do sistema métrico decimal, em 1810.
Mais que uma agradável história sobre a origem conturbada do sistema métrico, A medida de todas as coisas mostra como dois homens com personalidades tão diferentes conseguiram realizar suas minuciosas medições e ser responsáveis pelo sistema hoje adotado por cerca de 95% dos países do mundo -- a exceção maior fica por conta dos EUA, com suas milhas, jardas e polegadas.