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Um passado festivo
Historiador analisa mais de 300 anos de festas de caráter coletivo no Brasil colonial
Analisar as festas de caráter coletivo no Brasil, da carta de Caminha à Independência, foi o objetivo do historiador José Ramos Tinhorão em seu novo livro, As festas no Brasil colonial. Trata-se de uma viagem por mais de 300 anos de eventos públicos na América Portuguesa. As festividades se dividem em quatro ciclos cronológicos, correspondentes a cada século de colonização. A obra examina diversas manifestações criadas durante o período tanto pelo povo quanto pela Igreja e autoridades, como cavalhadas, touradas, procissões religiosas ou desfiles de alegorias barrocas.
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A aquarela Coroação de um Rei Negro nos festejos de Reis, de Carlos Julião (1740-1811), ilustra a capa de As festas no Brasil colonial | | |
Após a chegada dos portugueses ao Brasil, as festas se caracterizaram sobretudo pela imposição dos valores europeus. "E isso sem qualquer concessão à cultura preexistente das populações indígenas, ou à que adviria da rica mistura étnico-cultural branco-africano-crioula ao longo de toda costa e, logo, em pontos distantes do interior", analisa o autor. Até o século 17, as festividades não tinham caráter lúdico: a maioria era promovida pelo Estado ou seguia o calendário estabelecido pela Igreja Católica. Os portugueses, recém-saídos de uma sociedade teocrática, contavam com a responsabilidade pessoal diante do pecado para controlar os impulsos pagãos. Pessoas comuns participavam das festividades oficiais como meros espectadores, mas o controle dessa participação era menos rígido do que esperavam os colonizadores.
Já no Brasil do século 17, com a chegada dos negros e a rivalidade entre portugueses e holandeses, as congadas de negros e as cavalhadas de brancos luso-brasileiros tornaram-se as festividades mais representativas. O povo passou então a ter progressivamente maior oportunidade de participação em solenidades religiosas. Aos poucos, pessoas de camadas mais baixas deram caráter coletivo às cerimônias com a dramatização de episódios bíblicos para propagar o Evangelho. Para o autor, a participação popular levou ao deslocamento da diretriz religiosa das festas para objetivos profanos.
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A malhação do Judas, retratada acima, é uma das festas de iniciativa popular analisadas por Tinhorão | | |
Tinhorão detecta na abundância de festas no calendário do Brasil colonial um indício da presença do "antigo espírito dionisíaco": "Apenas a Igreja contribuía com cerca de um terço dos 365 dias do ano para festividades fora do trabalho." Porém, nem todos os registros desse espírito são abundantes: o autor não encontrou pistas sobre a música que animou as festas da época. "Pode-se afirmar que a memória da música brasileira das ruas coloniais se perdeu", lamenta.
As festas no Brasil colonial, lançado pela Editora 34, apresenta ilustrações (algumas inéditas) de artistas das diferentes épocas, como Jean-Baptiste Debret, Frans Post ou Carlos Julião. A obra aborda a história do país sob um novo ângulo e traz uma importante contribuição para o estudo da formação de nossa cultura.
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As Festas no Brasil Colonial José Ramos Tinhorão São Paulo: Editora 34, 2000 178 páginas; R$ 19,00 |
Cristina Souto Ciência Hoje/RJ 06/03/01 |