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 NOTÍCIAS :: HISTÓRIA

Pirâmides podem ser inspiradas em formações do deserto
União de nômades e habitantes do vale do Nilo teria formado civilização egípcia

As Pirâmides e a Grande Esfinge, monumentos que simbolizam a civilização do antigo Egito, podem ter sido inspiradas por formações naturais abundantes no deserto do Saara. O conhecimento dessas massas rochosas que ocorrem a oeste do rio Nilo teria sido levado ao Egito por povos nômades vindos da região do Saara há cerca de 5000 anos, em conseqüência de mudanças climáticas. A hipótese foi formulada pelo pesquisador Farouk El-Baz, da Universidade de Boston (Estados Unidos), em um artigo na edição de março/abril da revista Archaeology.

As formações piramidais naturais abundantes no deserto são as únicas que resistem à erosão pelo vento (fotos: Farouk El-Baz)

A região a oeste do rio Nilo, ao longo do qual se estabeleceu a civilização egípcia, é hoje uma das mais secas do planeta, mas já teve clima mais ameno no passado. Ciclos de clima seco e úmido se alternaram ao longo dos últimos 300.000 anos. O último ciclo úmido se estendeu de 11.000 a 5000 anos atrás. El-Baz afirma que, nesse período, a área era coberta por savanas, o que é atestado por indícios arqueológicos e análises de imagens de satélite que revelam a topografia da região no passado.

Segundo o pesquisador, o início da seca no Saara coincide com a emergência da civilização egípcia. Para fugir da seca, os povos nômades que habitavam a região migraram para o Vale do Nilo, onde encontraram grupos sedentários que cultivavam terras às margens do rio. "Pode ter sido a convergência dinâmica desses dois povos que plantou as sementes da civilização do antigo Egito", afirma El-Baz em seu artigo.

Os nômades do Saara teriam trazido para o Vale do Nilo o conhecimento das formações piramidais do deserto. Durante ciclos climáticos úmidos, as grandes massas rochosas no deserto adquirem formas variadas com a erosão pela água. Nos períodos secos, no entanto, a erosão dos ventos só poupa as formas piramidais. Quando atingem essas formações, os ventos são canalizados em direção ao vértice, onde sua energia e seu poder erosivo se dissipam no ar. As Pirâmides de Gizé, as mais antigas das Sete Maravilhas do mundo antigo, são as únicas que ainda existem, talvez devido à resistência à erosão dos ventos.

A Esfinge pode ter sido inspirada na formação rochosa acima, que ocorre no deserto e que os geólogos chamam de yardang


Assim, El-Baz conclui que, "se 'o Egito é uma dádiva do Nilo', como disse o historiador grego Heródoto, então as pirâmides são uma dádiva do deserto". O pesquisador notou também semelhanças entre a Grande Esfinge e formações rochosas naturais do deserto que apresentam um longo eixo paralelo ao vento predominante e uma 'protuberância' de forma similar à de uma cabeça. "O corpo de leão da Esfinge pode ter sido inspirado pelas formas naturalmente esculpidas pelo vento", diz El-Baz.

Para reforçar sua hipótese e mostrar a influência dos nômades do deserto na formação da civilização egípcia, o pesquisador evoca também o hieróglifo usado para representar 'deserto'. O símbolo é uma forma pontuda, como a das pirâmides naturais do deserto, e pode ter sido inspirado pela cultura dos povos nômades.


As pirâmides de Gizé, construídas no terceiro milênio antes de Cristo

Na formação da civilização egípcia, os agricultores do Vale do Nilo contribuíram com tecnologias desenvolvidas ao longo de 2000 anos para explorar as águas do rio; os nômades, que atravessaram as terras secas à noite para fugir do calor, trouxeram o conhecimento do deserto e da astronomia.

A convergência entre esses dois povos levou ao crescimento da população. À época, reinos ao longo do rio foram unificados, e a presença de um forte estado centralizador permitiu uma organização mais eficiente da sociedade. Com o tempo, isso tornou possível a produção de um excedente de alimentos, e em pouco mais de três séculos, os egípcios puderam construir sua primeira pirâmide.

 

Leia na internet o artigo de Farouk El-Baz (em inglês)

Bernardo Esteves
Ciência Hoje/RJ
20/04/01

 

 
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