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 NOTÍCIAS :: HISTÓRIA

O que une Getúlio Vargas a Pisístatro de Atenas?

Pesquisador associa tirano da Grécia antiga a ditador latino-americano do século 20

Quem poderia imaginar que um tirano da Grécia antiga do século 6 a.C pudesse ser comparado a um ditador populista latino-americano do século 20, como os presidentes Getúlio Vargas e Juan Perón? A proposta foi do historiador José Antonio Dabdab Trabulsi, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que a apresentou no livro Ensaio sobre a mobilização política na Grécia Antiga, recém-lançado pela Editora UFMG. Trabulsi dedica um capítulo do livro à comparação entre líderes tirânicos e ditadores populistas dessas duas épocas distintas da História. Ele também analisa a participação política na Grécia arcaica e a forma como as pessoas de diferentes esferas da cidade-estado se mobilizavam.

Detalhe da capa do livro Ensaio sobre a mobilização política na Grécia antiga

Embora os dois períodos não tenham influência histórica direta entre si, ambos os cenários políticos surgiram em contextos históricos muito parecidos. Nos dois casos, as massas encontravam-se dominadas pelo poder oligárquico e, ao mesmo, reivindicavam maior participação política. E esse desejo por mudanças favoreceu o surgimento do tirano e do ditador como protetores do povo. Trabulsi analisa e compara o tipo de ação que cada um deles desempenhou contra os sistemas políticos anteriores. No caso brasileiro, Vargas se opôs à elite cafeeira e à política vigente do café-com-leite (alternância de Minas Gerais e São Paulo no poder federal); na Grécia, Pisístrato, de Atenas, lutou contra a aristocracia territorial (participação política restrita aos nobres).

Outra característica comum aos dois períodos foi o padrão de desenvolvimento econômico, político e cultural estabelecido por esses governantes, que transformaram a vida das populações. Vargas lançou medidas políticas de incentivo à industrialização, implantou uma legislação trabalhista e ampliou a participação política da sociedade, entre outros. Já Pisístrato deu início a um período de grandes obras, como a construção do primeiro grande Partenon, criou os primeiros concursos de teatro e lançou políticas de créditos aos pequenos produtores.

A ascensão dos tiranos e dos ditadores populistas ao poder ocorreu em um período de maior participação política das massas. Segundo o historiador, a figura de pai do povo e a bandeira de luta por justiça exploradas por esses governantes mostram que, nos dois casos, houve forte manipulação política. "Essa maquinação não resultou de pensamentos maquiavélicos, mas de pessoas que também tinham interesses e, por isso, se deixavam controlar", explica.

Ao usar uma forma pouco usual de comparação, o autor mostra que é possível fazer uma aproximação histórica entre duas épocas tão diversas e com tantos séculos de separação. "A análise de um fato de época muito anterior a nossa pode nos ajudar na compreensão dos acontecimentos contemporâneos. É um diálogo do passado com o presente", completa.

Ensaio sobre a mobilização política na Grécia antiga
José Antônio Dabdab Trabulsi
Editora UFMG, 2001, 144 páginas

Cristina Souto
Ciência Hoje/RJ
11/05/01

 

 
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