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As cidades romanas, de traçado regular, permitiam ágil circulação. As cidades mulçumanas tinham o centro administrativo em local elevado e as ruas, espontâneas e sinuosas, formavam um labirinto de moradias sem janela.

O traçado das ruas brasileiras em quadras tem influência romana. Aqui, as ruas eram de terra batida e apenas as mais íngremes recebiam calçamento de pedras irregulares -- conhecido como pé-de-moleque. Com a Revolução Industrial, as ruas passam a comportar um fluxo intenso e são ampliadas as vias de circulação e transporte urbano. Na segunda metade do século 19, surgem a pavimentação de paralelepípedos e o escoamento de águas pluviais.



As praças foram costume no Brasil como na Europa. Elas se resumiam a um espaço aberto até o século 17, quando foram acrescentados os aparatos que as aproximam das atuais. Com a Revolução Industrial, elas perderam o sentido comercial e se tornaram rótulas de trânsito ou áreas de lazer.

O botânico francês Auguste François Marie Glaziou introduziu os jardins à moda inglesa no Brasil, na recuperação de praças cariocas no século 19. No século 20, os jardins franceses predominaram novamente até a implantação do Estado Novo, nos anos de 1930, quando foi adotada estética exuberante, que incorporava lagos e caminhos sinuosos. Burle Marx redefiniu o paisagismo brasileiro em obras públicas, numa tendência que aponta para a utilização para o esporte e lazer.

 

 NOTÍCIAS :: HISTÓRIA

A metamorfose das cidades brasileiras
Livro de historiadores recorre a imagens e cultura popular para contar evolução urbana

Depois do livro 500 anos da casa no Brasil, os historiadores Francisco Salvador Veríssimo, William Seba e José Maurício Alvarez se dedicaram às cidades. Vida urbana - a evolução do cotidiano da cidade brasileira contextualiza a trajetória dos aglomerados urbanos na história do Brasil e do mundo, ilustrada por uma centena de imagens e inúmeras referências à cultura popular.

A cidade de Salvador, ainda murada, em 1625 (reprodução do livro)

A observação espacial da cidade dialoga com a ótica do trabalho, do lazer e da morte. A fluidez narrativa, que integra história, sociologia e arquitetura, reflete a formação dos autores. Além de historiadores e professores universitários, Francisco e William são arquitetos e José Maurício é artista plástico.

A cidade instaurada no Brasil segue o modelo trazido pelo colonizador português, de origem latina e árabe. A exigência de defesa determinou a predominância de muralhas e a localização das cidades em baías ou deltas de rios. Com a unificação de Portugal e Espanha (1581), ergueram-se fortalezas invisíveis aos que chegassem por mar. A evolução da artilharia no século 17 inutilizou as muralhas e deslocou as cidades para a orla, onde crescia o comércio.

A abolição da escravatura deu início às favelas e a migração estrangeira inaugurou estalagens e cortiços. No início do século 20, algumas capitais foram remodeladas segundo o modelo parisiense (no qual avenidas largas interligam praças), o que deslocou a população das favelas para a periferia. Com a explosão urbana após a Segunda Guerra, os arranha-céus passam a predominar e a especulação imobiliária acentua a verticalização.

Habitação coletiva comum entre o fim do séc. 19 e início do 20

O Brasil 'importou' seus problemas de salubridade da Metrópole. Em Lisboa, os dejetos e lixo ficavam nas ruas à espera de chuvas; um decreto impunha gritar 'água vai' quando se atirassem excrementos. No Brasil, a situação era agravada porque escravos mortos eram atirados nos monturos de lixo e as chuvas torrenciais enchiam as ruas de lama. Nas praias, rios e lagoas, dejetos eram depositados pelos tigres -- escravos que tinham a pele listrada pelos detritos que escorriam dos cestos de palha carregados às costas.

A Revolta da Vacina, a abertura de avenidas e a luta de Oswaldo Cruz pela erradicação de epidemias marcam as reformas sanitárias no Rio de Janeiro, espalhadas pelo país no início do século 20. Na época, os sanitaristas acreditavam que o esgoto despejado nos mares seria absorvido pela natureza. Até a segunda metade do século 19, os mortos eram enterrados em sua propriedade ou no interior de capelas, enquanto valas comuns destinavam-se aos pobres. Em 1851, por decreto da corte, os cemitérios públicos foram estabelecidos e sua instituição no resto do Brasil geralmente acompanhou epidemias.

A incursão dos autores pelas cidades brasileiras passa ainda por praças, jardins, igrejas e presídios (o primeiro foi inaugurado no Rio de Janeiro em 1850). A descrição histórica se torna vívida na riqueza das imagens que ilustram a narrativa a quase toda página, nas amostras da cultura e no relato de simples hábitos cotidianos.

Vida urbana - a evolução do
cotidiano da cidade brasileira

Francisco Salvador Veríssimo, William Seba
Mallmann Bittar, José Maurício Alvarez
Rio de Janeiro, 2001, Ediouro
229 páginas, R$ 29,90

Leia também: Planejamento urbano no Brasil colonial

Para saber mais sobre a urbanização do Rio
de Janeiro, leia o perfil de
Oswaldo Cruz

Raquel Aguiar
Ciência Hoje on-line
29/10/01

 

 
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