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A escravidão na Minas Gerais do século 18
Livro revela mobilidade social dos negros e contradições do sistema colonial
Na década de 1730, em Minas Gerais, uma escrava africana influenciava o cotidiano de negros, mestiços e brancos ao ler o futuro e falar sobre o passado de quem a procurasse. Luiza Pinto foi presa pelo Santo Ofício acusada de bruxaria. O dia-a-dia na colônia era marcado então pela circulação de idéias, culturas, linguagens e práticas religiosas distintas. Não se pode desconsiderar a importância das negras quitandeiras, das amas-de-leite e das quituteiras nesse processo sociocultural.
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Aquarela de 1827 de Debret retrata negra tatuada vendendo cajus | | |
Histórias como a de Luiza Pinto -- que enriquecem a análise do sistema escravista em Minas Gerais no século 18 -- estão presentes no livro recém-lançado Escravidão e universo cultural na colônia - Minas Gerais, 1716-1789. O autor, o historiador Eduardo Paiva, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, procura dissecar as relações que permeavam a convivência de brancos, negros e mestiços em uma sociedade contraditória.
Os escravos, sobretudo as mulheres, construíram o caminho da liberdade ao se apropriar das próprias contradições do sistema. Tal como uma sociedade escravista e patriarcal, a Minas Gerais do século 18 abrigava figuras como a escrava alforriada (forra) Barbara Gomes de Abreu e Lima, que residia em um dos melhores endereços de Sabará. Contava em sua roda de amigos com o vigário da Comarca do Rio das Velhas e um capitão-mor, além de possuir vários artigos importados da Ásia e Oriente Médio. Não bastasse toda a pompa, Barbara era ainda dona de escravos.
Eduardo Paiva reconstrói a memória mineira a partir de uma ampla pesquisa em arquivos, museus e bibliotecas. Ao analisar inventários e testamentos, o autor revela como os negros seguiam hierarquia e códigos próprios. Mulheres como Barbara ilustram a possibilidade de mobilidade social na colônia. As "senhoras do dia-a-dia" urbano, como define Paiva, tinham seus parceiros: alguns casais de forros, por exemplo, possuíam pequenas e médias propriedades.
A publicação é fruto da tese de doutorado do autor, defendida em 1999. Ela foi adaptada de modo a se tornar atraente para o público leigo. O livro traz a análise de várias tabelas, além de fotos e ilustrações que resgatam a Minas Gerais escravocrata. A capitania é apresentada como palco de eventos que repercutem na cultura, no comportamento e na vida econômica, social e política da colônia.
Escravidão e universo cultural na colônia é, portanto, leitura indispensável para interessados no passado do Brasil colônia. Como bem definem os historiadores Serge Gruzinski e Mary Del Priori (autores da orelha e do prefácio do livro, respectivamente), muitos livros abordam a escravidão em Minas Gerais. Mas são poucos os que, como a obra de Paiva, têm a sensibilidade de perceber mecanismos profundos que regem as relações sociais e a capacidade de ampliar uma primeira interpretação da fonte documental.
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Escravidão e universo cultural na Colônia - Minas Gerais, 1716-1789 Eduardo França Paiva Belo Horizonte, 2001, Editora da UFMG 285 páginas; R$ 28,00 |
Aline Pereira Ciência Hoje on-line 05/11/01 |