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 NOTÍCIAS :: HISTÓRIA

Os livros sagrados da humanidade
Historiador francês resgata textos da Antigüidade em reação à bíblia cristã

 Jules Michelet (1798-1874) nasceu pouco após a Revolução Francesa, que marcou a transição da Idade Média para a Modernidade. O historiador buscou superar o obscurantismo do período medieval com o resgate de antigos textos sagrados reunidos no livro A Bíblia da Humanidade: mitologias de Índia, Pérsia, Grécia e Egito, um "longo trabalho que me ocupava os dias e tirava noites de sono", como descreveu. Segundo o escritor francês Victor Hugo, ele foi "o decifrador das grandes esfinges da História".

Michelet tornou-se conhecido como o primeiro historiador a afirmar que não eram as grandes personalidades, e sim as massas, o único agente de transformação histórica. Em suas obras, defendia a ressurreição integral do passado e inaugurou uma história romântica, em que usava a narrativa detalhada e dramática para reproduzir a vida real. A observação do conjunto de práticas cotidianas da sociedade -- e não apenas seus aspectos políticos e econômicos -- fez com que muitos historiadores o considerassem precursor da história das mentalidades.

Os julgamentos pessoais são uma característica peculiar dos textos de Michelet, o que não compromete a consulta sempre exaustiva a fontes de documentação. A Bíblia da Humanidade é um livro declaradamente crítico, uma reação à bíblia cristã que Michelet julga "tenebrosa e cheia de equívocos escabrosos". O autor apresenta uma visão apaixonada da cultura oriental, "berço de nossa raça", e conclama os homens a beberem nesse "grande rio de poesia".

Krishna (esq.) representa a imagem do infinito na cultura indiana; o grifo (dir.) é um monstro mitológico com cabeça de águia e garras de leão que habita o deserto de Góbi, na antiga Pérsia (imagens do livro A Bíblia da Humanidade)

O poema sagrado dos indianos, o Râmayana, apresenta a crença de que ao fazer fogo o homem criou os deuses. O Zend Avesta, livro sagrado da Pérsia (atual Irã), traz a lição do trabalho e considera a morte, Lama, expressão das atitudes em vida. O Shah Nameh ou Livro dos Reis é a versão final da história épica da Pérsia desde os tempos míticos. Na Grécia, Homero resume mil anos de poesia em A Ilíada. No Egito, a religião "sem mistério, em plena luz, toda de amor" está reunida no Livro dos Mortos.

Michelet trata ainda do Antigo Testamento, livro sagrado dos judeus, e aponta as origens orientais de diversos preceitos cristãos. A transformação das civilizações em meio a guerras e invasões também é abordada, com destaque para a saga de Alexandre, o Grande. O enfoque sobre a mulher permeia toda a análise do historiador, que destaca a tradição sensual e feminina da Síria e retrocede à origem do cristianismo, quando as mulheres eram sacerdotisas.

A Bíblia da Humanidade é um marco do emprego do subjetivismo na construção de uma visão abrangente da realidade histórica. A recente edição do livro, amplamente ilustrada com exemplos da arte de cada civilização, torna ainda mais vívido este retrato da história. Michelet, considerado um dos maiores historiadores de todos os tempos, insistia: "Se fui melhor historiador que os outros é porque amei mais que eles."

 





 

A Bíblia da Humanidade
Jules Michelet; tradução de Romualdo Sister
São Paulo, Prestígio Editorial, 2001
368 páginas; R$ 32,90


Raquel Aguiar

Ciência Hoje on-line
04/03/02

 

 
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